Arnaldo Jabor: ‘‘Estou cumprindo um papel de análise que pessoas mais cultas e muito mais sérias que eu não estão fazendo ou por arrogância ou por preguiça’’Nunca, mas nunca mesmo as idéias de Arnaldo Jabor atingiram um público tão grande. Vejamos: são pelo menos 50 milhões de pessoas que compartilham - pelo menos ouvem - seus comentários no Jornal Nacional. Outro contingente incontável de pessoas o lêem semanalmente em 12 jornais espalhados pelo Brasil. Enfim, é um público que ele sequer teve em 25 anos de cinema - ‘‘Eu te Amo’’ e ‘‘Eu Sei que Vou te Amar’’ tiveram, aproxidamente, cada um, 4,5 milhões de espectadores.
Ele não reclama, mas acha no mínimo irônico.‘‘O mais estranho é que no meu negócio atual as classes C e D são as que mais gostam do que eu faço’’- informa um deslumbrado Jabor que garante ainda estar a-do-ran-do ser articulista. Ou jornalista. Ou comentarista. Ou seja lá o que for. O fato é que escrever para jornais e falar em televisão - a de maior audiência, coincidentemente - é um prazer que ele descobriu a partir de 91, quando começou a escrever para a Folha de São Paulo.
Foi levado pra lá graças ao empurrãozinho de Fernando Gabeira. ‘‘Comecei a fazer jornalismo e funcionou, graças a Deus. Isso me dá uma alegria muito grande porque fazendo jornalismo comecei ter a sensação de estar participando da vida social do País ’’ - diz. Hoje, Jabor parece - mesmo que negue - ser antes de mais nada um polemista. Um cara sem papas de língua que adora mexer no vespeiro. Chegou até sugerir que se fechasse o Congresso Nacional... Resultado: quase que o circo pegou fogo.
Jabor é simpático, educado, inteligente, bem informado e... desbocado. Suas idéias são amarradas sempre com um raciocínio lógico e faiscante, muito embora condimentado com palavrões que saem naturalmente. E foi com esses ingredientes que ele concedeu entrevista à Folha2, durante sua passagem por Londrina na semana passada. A seguir, os principais trechos.
Como colunista ou cronista você normalmente é polêmico. É intencional, você puxa o que escreve para a polêmica?
Arnaldo Jabor - Não, não. Eu não busco a polêmica; ela acontece. Como eu faço questão de não me posicionar por nada, mas também não me posiciono contra nada, eu tenho uma posição crítica no sentido da palavra grega - de observar as coisas, críticas com análises. Como eu não me posiciono por ou contra necessariamente sempre à mesma coisa, eu estou sempre, de alguma maneira, criticando alguém sem querer. Às vezes por omissão. Então as coisas que escrevo têm dado grande repercussão e depois que fui para a televisão foi uma loucura. É uma coisa que faz bem ao ego mas eu te juro que não é isso que move. Claro, no início você fica um pouco mascaradinho, mas não é isso que me interessa. Me interessa a sensação de estar participando da vida política do País. No cinema eu não tinha essa sensação.
E também não tem um público tão grande que a televisão tem..
Arnaldo Jabor - Sabe quantas pessoas assistem ao Jornal Nacional? Sessenta milhões.
Em outras palavras, é um público que jamais você sonharia em ter como cineasta, não?
Arnaldo Jabor - Jamais. O filme que mais fez sucesso teve 4,5 milhões de espectadores que foi o ‘‘Eu te Amo’’.
Não é irônico ou ingrato comemorar 25 anos de carreira, ter oito filmes e você ficar conhecido do grande público como comentarista de TV, por exemplo?
Arnaldo Jabor - Ah, eu adoro... acho esquisitíssimo. Não tem nada a ver, não monta. Se bem que por um lado monta porque o cinema que a gente fazia tinha uma função crítica. O chamado Cinema Novo era um cinema de crítica...
E você acha que isso atiça a curiosidade dessas pessoas em saber quem é e o que faz o Arnaldo Jabor cineasta?
Arnaldo Jabor - Não sei... O público de televisão em geral me confunde com a Regina Duarte. É quase a mesma coisa pra eles. Apareceu na televisão você entra numa categoria meio geral de ‘‘as pessoas que aparecem na televisão’’. Então, Wilian Bonner, eu, a Fátima Bernandes somos coisas parecidas; pessoas que aparecem na televisão. Então atribuem a essas pessas superpoderes. E quando vêem que falo sobre política, me meto, critico, acham que sei sobre tudo. Quando faço conferências me perguntam, por exemplo, sobre questão agrária, sobre problema econômico...
Ou seja, te elevaram à categoria...
Arnaldo Jabor - (interrompendo) Eu sou uma mistura de Sartre com Jerry Adriani. Um pop star com gênio.
E você se acha isso?
Arnaldo Jabor - Sou um pobre diabo tentando ganhar a vida e me metendo na vida brasileira que é o que eu gosto. Eu gosto de esculhambar f.d.p., isso é muito bom. É muito alegre, muito agradável.
Como intelectual, qual é sua contribuição? É ser incisivo?
Arnaldo Jabor - Você está perguntando o que eu acho que eu valho?
É, pode ser essa pergunta.
Arnaldo Jabor - Nessa atividade que estou eu acho que é a contribuição de texto. Eu tenho uma característica que acho que é legal e tenho orgulho dela: é a capacidade de descobrir o que está escondido por trás das aparências dos fatos. Eu consigo fazer ilações inesperadas e estou fazendo um papel, apesar de não ser uma acadêmico ou um cientista político, não sou uspiano ou p... nenhuma dessas. Estou cumprindo um papel de análise que pessoas mais cultas e muito mais sérias que eu não estão fazendo ou por arrogância ou por preguiça. (...)Eu gostaria de ver Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Marilena Chaui, Sergio Cardoso, entre outros, fazerem a mesma coisa. Queria que eles se metessem, errassem, dissessem besteiras mas não: ficam encastelados nas torres da USP e não fazem nada.
Existem recomendações sobre o que você não pode falar, na Globo?
Arnaldo Jabor - Nada. Apenas o Evandro Carlos de Andrade (diretor geral de jornalismo da Rede Globo) que é um puta jornalista... Quando vou falar de um tema muito delicado, eu escrevo e mostro pra eles antes e digo se está tudo bem. Eu não sou besta. Quase me prenderam várias vezes... Em vez de falar c... fala bunda, por exemplo.
Pequenos detalhes...
Arnaldo Jabor - Pequenos detalhes. Quando sinto que o assunto é muito candente eu consulto a diretoria. Não sou maluco. Na época daquele negócio do Congresso (Jabor sugeriu que se fechasse o Congresso), a Globo, foi impecável. Fui muito bem tratado por todos os jornais e só fui esculhambado por dois ou três vagabundos, dois ou três colegas como o Jânio de Freitas e o Carlos Heitor Cony (basicamente são esses)... São duas pessoas extremamente rancorosas, pessoas feias por dentro, pessoas que jogam a favor do fracasso do Brasil a pretexto de serem ‘‘progressistas’’. Eles não são progressistas p... nenhuma, são dois reacionários. Então eles disseram que eu estava querendo fechar o Congresso para puxar o saco do Planalto. O Cony disse que eu estava puxando o saco do Fernando Henrique para descolar uma grana e fazer um filme. Esse homem (Cony) viveu de lamber o saco do Adolfo Bloch durante 30 anos da vida dele. E o Jânio de Freitas foi águia branca, da juventude fascista da época do Plínio Salgado.
Aquela perguntinha manjada: o cinema nacional está renascendo?
Arnaldo Jabor - Tá, do ponto de vista de produção está renascendo. A lei do audiovisual é muito boa. Porém, o problema do cinema nacional não é levantar uma grana para conseguir fazer um filme. Isso é fácil. O problema continua sendo a distribuição. Você faz um filme e aí como é que lança? Lançar onde se os cinemas estão ocupados todos pelo Schawzennegger, pela p.q.p., pelo Bruce Willis, pelo cinema americano todo. Então, o Brasil continua sendo um país ocupado pelo cinema americano. Precisa ter reserva de mercado; tem que ter cota de tela. Tem coisa que o neoliberalismo não resolve de maneira nenhuma. O neoliberalismo é bom pros outros, pra nós é uma b...
Você tem planos de voltar a filmar?
Arnaldo Jabor - Eu tenho um roteiro antigo, que é um musical, uma história interessante mas que ficou arcaica com o passar dos tempos. Não era um filme caro mas exigia ter muito bailarino... Aí desisti. Uma época eu estava com vontade de fazer uma adaptação de ‘‘Senhorita Simpsom’’, uma novela de Sérgio Santana. Perdi a tesão. Dei para o Bruno Barreto e é bem capaz que ele faça.
Bem pelo jeito, vai demorar para voltar a filmar?
Arnaldo JaborPode ser que o ano que vem... Minha mulher é produtora de cinema e ela disse: vamos fazer um filme! Mas eu quero fazer um filme por motivos estritamente póeticos, sem prazer. Sem nenhuma vinculação com a chateação cinematográfica: ah, o mercado, precisa fazer uma concessão aqui... Quero fazer um filme autoral mesmo.
Com a projeção que você agora tem, fica mais fácil impor condições de filmar, por exemplo?
Arnaldo Jabor - Não, acho que não. Não adianta ter muito prestígio porque cinema é uma arte muito f.d.p. É um comércio muito cruel. Não tem colher de chá. Se o filme não tiver uma besteirinha qualquer para o grande público... E eu não estou a fim de fazer concessões porque não faço concessões no que estou fazendo agora. Nunca fui tão livre quanto quando escrevo num jornal. Juro por Deus.

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