"Sou uma geografia humana"
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terça-feira, 24 de novembro de 1998
Isadora Andrade Cult Press 
Chico Diaz não pode se queixar dos papéis que consegue. O ator já participou de 36 produções cinematográficas nacionais - o que não é pouco - nas quais interpretou tipos bastante diferentes entre si. Desde o assassino de aluguel hispânico de Os Matadores, de Beto Brant, passando pelo cangaceiro de Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry, e indo até o tenente gaúcho que fez em O Tronco, de João Batista de Andrade. Desta vez, Chico encarna um ambicioso empresário cabo-verdiano em O Testamento do Senhor Nepumoceno, de Francisco Manso. Sou uma geografia humana. Sinto-me abençoado por isso, orgulha-se o ator.
A comédia de costumes, baseada na obra O Testamento do Senhor Nepumoceno da Silva Júnior, do escritor cabo-verdiano Germano Almeida, foi toda filmada com sotaque típico do português falado no pequeno país africano - o filme é uma co-produção entre Brasil, Portugal e Cabo Verde. Na história, Chico vive o sobrinho de um ricaço que, ao morrer, deixa toda a herança para uma filha bastarda. A partir daí, o rapaz, que pensava ser o único herdeiro do tio, se revolta e tenta conseguir os direitos sobre a fortuna.
Para filmar O Testamento..., Chico passou dois meses em Mindelo, uma ilha vulcânica pertencente ao arquipélago de Cabo Verde. Ele conta que, assim que chegou ao local das filmagens, se surpreendeu com a estrutura do lugar. Era só pedra, relembra o ator. Mas não demorou muito para se entrosar com a população local, que insistia em chamá-lo de Rafael - nome do personagem que fez na novela Mandala, que estava sendo exibida no país.
O ator teve de aprender a pronúncia de Cabo Verde para poder participar do filme do diretor português. Com medo de que o acento ficasse muito forçado, Chico não perdia uma aula do professor de prosódia contratado pela direção. Ele marcava sob pressão, acusa. Além de ler o livro que inspirou a obra, decidiu conversar com habitantes locais para entender mais sobre o país. É um povo que tem uma alegria rara, descreve. Voltou tão empolgado que passou a recomendar o local para os amigos mais chegados.
Mesmo antes de estrear, O Testamento do Senhor Nepumoceno já arrebatou alguns prêmios, entre eles os de melhor filme, ator e roteiro no Festival de Gramado ano passado. É uma comédia deliciosa, elogia o ator. Após o lançamento do filme, ele se prepara para a chegada de O Tronco, em que também participou e tem estréia prevista para o início de 99. Assim como O Testamento..., o filme de João Batista de Andrade - o mesmo de O Homem que Virou Suco - também foi inspirado em um romance, dessa vez do brasileiro Bernardo Elis. A produção, orçada em R$ 3 milhões, é um épico regionalista recheado de conflitos políticos que há mais de 30 anos está nos planos do cineasta. Acredito muito nesses projetos que são fruto de sonho e perseverança, julga Chico.
O romance de Bernardo Elís foi baseado em fatos reais e fala de um choque entre coronéis do Norte e do Sul de Goiás no início do século. As cenas foram rodadas numa vila cenográfica construída em Pirenópolis, no interior de Goiás. Ao todo, foram 3 mil figurantes, entre jagunços e oficiais, vividos pela população local. Na mistura de ação e aventura e ao lado de atores como Antônio Fagundes, Letícia Sabatella e Ângelo Antônio, Chico interpreta o Tenente Catulino, um oficial gaúcho que participa das batalhas sangrentas.
Enquanto não é escalado para nenhuma produção da Globo - ele tem um contrato com a emissora - Chico aproveita para negociar um projeto próprio. Juntamente com Cassiano Carneiro e Alexandre Isak, o ator pretende adaptar um conto russo para o cinema. Além disso, se prepara para participar de Por 30 Dinheiros, da cineasta paraibana Vania Perazzo. O filme conta a história de dois sujeitos que trabalham em um circo mambembe encenando a Paixão de Cristo. Depois de roubar a féria do circo, eles fogem ainda vestidos de São Pedro e Jesus Cristo. É um projeto regional incrível, vibra o ator.


