Chico Diaz não pode se queixar dos papéis que consegue. O ator já participou de 36 produções cinematográficas nacionais - o que não é pouco - nas quais interpretou tipos bastante diferentes entre si. Desde o assassino de aluguel hispânico de ‘‘Os Matadores’’, de Beto Brant, passando pelo cangaceiro de ‘‘Corisco e Dadᒒ, de Rosemberg Cariry, e indo até o tenente gaúcho que fez em ‘‘O Tronco’’, de João Batista de Andrade. Desta vez, Chico encarna um ambicioso empresário cabo-verdiano em ‘‘O Testamento do Senhor Nepumoceno’’, de Francisco Manso. ‘‘Sou uma geografia humana. Sinto-me abençoado por isso’’, orgulha-se o ator.
A comédia de costumes, baseada na obra ‘‘O Testamento do Senhor Nepumoceno’’ da Silva Júnior, do escritor cabo-verdiano Germano Almeida, foi toda filmada com sotaque típico do português falado no pequeno país africano - o filme é uma co-produção entre Brasil, Portugal e Cabo Verde. Na história, Chico vive o sobrinho de um ricaço que, ao morrer, deixa toda a herança para uma filha bastarda. A partir daí, o rapaz, que pensava ser o único herdeiro do tio, se revolta e tenta conseguir os direitos sobre a fortuna.
Para filmar ‘‘O Testamento...’’, Chico passou dois meses em Mindelo, uma ilha vulcânica pertencente ao arquipélago de Cabo Verde. Ele conta que, assim que chegou ao local das filmagens, se surpreendeu com a estrutura do lugar. ‘‘Era só pedra’’, relembra o ator. Mas não demorou muito para se entrosar com a população local, que insistia em chamá-lo de Rafael - nome do personagem que fez na novela ‘‘Mandala’’, que estava sendo exibida no país.
O ator teve de aprender a pronúncia de Cabo Verde para poder participar do filme do diretor português. Com medo de que o acento ficasse muito forçado, Chico não perdia uma aula do professor de prosódia contratado pela direção. ‘‘Ele marcava sob pressão’’, acusa. Além de ler o livro que inspirou a obra, decidiu conversar com habitantes locais para entender mais sobre o país. ‘‘É um povo que tem uma alegria rara’’, descreve. Voltou tão empolgado que passou a recomendar o local para os amigos mais chegados.
Mesmo antes de estrear, ‘‘O Testamento do Senhor Nepumoceno’’ já arrebatou alguns prêmios, entre eles os de melhor filme, ator e roteiro no Festival de Gramado ano passado. ‘‘É uma comédia deliciosa’’, elogia o ator. Após o lançamento do filme, ele se prepara para a chegada de ‘‘O Tronco’’, em que também participou e tem estréia prevista para o início de 99. Assim como ‘‘O Testamento...’’, o filme de João Batista de Andrade - o mesmo de ‘‘O Homem que Virou Suco’’ - também foi inspirado em um romance, dessa vez do brasileiro Bernardo Elis. A produção, orçada em R$ 3 milhões, é um épico regionalista recheado de conflitos políticos que há mais de 30 anos está nos planos do cineasta. ‘‘Acredito muito nesses projetos que são fruto de sonho e perseverança’’, julga Chico.
O romance de Bernardo Elís foi baseado em fatos reais e fala de um choque entre coronéis do Norte e do Sul de Goiás no início do século. As cenas foram rodadas numa vila cenográfica construída em Pirenópolis, no interior de Goiás. Ao todo, foram 3 mil figurantes, entre jagunços e oficiais, vividos pela população local. Na mistura de ação e aventura e ao lado de atores como Antônio Fagundes, Letícia Sabatella e Ângelo Antônio, Chico interpreta o Tenente Catulino, um oficial gaúcho que participa das batalhas sangrentas.
Enquanto não é escalado para nenhuma produção da Globo - ele tem um contrato com a emissora - Chico aproveita para negociar um projeto próprio. Juntamente com Cassiano Carneiro e Alexandre Isak, o ator pretende adaptar um conto russo para o cinema. Além disso, se prepara para participar de ‘‘Por 30 Dinheiros’’, da cineasta paraibana Vania Perazzo. O filme conta a história de dois sujeitos que trabalham em um circo mambembe encenando a ‘‘Paixão de Cristo’’. Depois de roubar a féria do circo, eles fogem ainda vestidos de São Pedro e Jesus Cristo. ‘‘É um projeto regional incrível’’, vibra o ator.

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