Sou religioso, mas não sou careta
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terça-feira, 02 de setembro de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
É só alguém se apresentar como membro de grupos de jovens de igreja ou manifestar cuidado especial com a religiosidade que a imagem de ''careta'' ou ''quadrado'' já passa pela cabeça de muitas pessoas. Claro, existem os que seguem dogmas à risca, entretanto, muita gente busca um espaço maior para a espiritualidade equilibrando as responsabilidades com as ''tentações''.
''Tem bastante gente que deixa de fazer parte de atividades religiosas porque qualquer coisa ligada a fé as pessoas já acham que é careta. Existe muito desse preconceito'', diz o dentista Fábio Bonamin dos Santos, 27 anos, que participou, em 1996, do Grupo de Jovens Deus, Amor e Compreensão (Deaco), com atividades baseadas na igreja católica mais aberta às pessoas de todas as religiões. ''Uma vez deixei de ir para a praia porque eu fui ajudar em um orfanato e o pessoal já chamou de careta'', recorda.
Apesar de ser considerado ''quadrado'' por alguns amigos, Santos manteve a vontade de investir na religiosidade e conseguiu levar uma adolescência como a de qualquer outra pessoa. ''Fiz as mesmas burradas que qualquer um, enfiei o pé na jaca muitas vezes, fiz tudo o que o pessoal da idade costuma fazer.'' A diferença é que, com a atenção ao lado espiritual, ele pôde lidar melhor com os erros. ''Nos encontros há muitas palestras, sobre drogas, sexo e sobre valores, como a família. Não te dizem nada de novo e é uma coisa bem aberta, você segue se quiser. Eu não vivia como um puritano, na hora que ia fazer burradas, fazia igual a qualquer outro jovem. A diferença é que o que me diziam no grupo servia para refletir sobre meus erros depois'', destaca.
A jornalista Izabelle Bellenda, 24 anos, diz que o fato de frequentar a umbanda e exercitar seu lado espiritual não a impede de ir a shows de rock, beber moderadamente com os amigos ou fazer qualquer atividade comum aos outros jovens. ''Não tem regras sobre isso, posso beber mas tento cuidar do corpo, não beber muito ou usar drogas. Aos sábados não bebo e no terreiro tem banho de ervas para cuidar do corpo'', conta.
O importante, de acordo com Izabelle, é encontrar algo em que se acredite e se sinta confortável. ''Existem muitas regras em religiões que acabam alienando as pessoas. Se eu não tivesse a liberdade pra pensar ou questionar, acho que não seria religiosa'', afirma. Ela é espírita desde criança, por influência dos pais, e há dois anos resolveu investir seu tempo na umbanda. ''Umas amigas da faculdade iam e resolvi experimentar. Sou umbandista porque a umbanda tem coisas que acredito no espiritismo, como trabalhar pensando em ajudar outras pessoas.''
Já para o surfista e engenheiro mecânico Fábio Lugarini, 27 anos, a religiosidade ajudou-o a superar dificuldades e encontrar um caminho mais frutífero. ''Surfo desde os 13 anos e nunca tinha sido muito religioso, era católico não-praticante. Era envolvido com bebidas e drogas, não estudava, reprovei dois anos e não tinha muitas perspectivas. Então, comecei a frequentar uma igreja em 2000'', lembra.
A primeira opção não foi a ideal. ''Acho que o tradicionalismo da igreja me bloqueou um pouco. Em 2001, quando conheci os Surfistas de Cristo, comecei a frequentar mais as reuniões e as coisas começaram a melhorar. Entrei na faculdade, fiz uma pós-graduação, casei, tenho um bom emprego'', relaciona Lugarini, vice-presidente da Associação dos Surfistas de Cristo, que procura auxiliar os surfistas envolvidos com bebidas e drogas no litoral paranaense.
Lugarini destaca que, apesar de ser tachado de ''careta'' pelos amigos, muitos dos quais hoje recebem sua ajuda, manteve-se firme à nova proposta de vida e não deixou de fazer atividades comuns aos jovens. ''Continuei namorando, continuei surfando, até mais do que antes'', opina.
Os três concordam em uma coisa: equilíbrio é fundamental para explorar o lado espiritual da vida sem exagerar na rigidez dos dogmas impostos pela maioria das religiões. ''Essa é a eterna busca de todo mundo, pelo meio termo. Não deixar de fazer as coisas que quer mas também não enfiar o pé na jaca todo dia. O cara que consegue encontrar esse equilíbrio é um felizardo'', reflete Santos.


