''Sou muito chique para ser roqueiro''
Sou muito chique para ser roqueiro
Paulo do AmaralLobão: O rock nacional passa a idéia de uma nostalgia necrófilaAo contrário da imagem que sempre passou para o público, de arranjador de confusão, temperamental e mal-humorado, Lobão é engraçado, educado e, como ele próprio diz, insuportavelmente feliz. De vez em quando se empolga durante a conversa e tem surtos explosivos, que não duram mais que um minuto. Descontrola-se com frequência quando é chamado de roqueiro. O contra-ataque é imediato e irônico. Eu nunca fui roqueiro. Pelo contrário, sempre fui da MPB e briguei para que a imprensa me visse assim. Sou um cara muito chique para ser roqueiro.
Lobão ganhou evidência como roqueiro na década de 80, época em que conquistou fama e notoriedade com hits como Décadence Avec Élégance, Vida Bandida, Corações Psicodélicos e Me Chama. Foi um sucesso mórbido. Eu passei um tempo na prisão e as pessoas me amavam pelo o que eu não era. Me viam como um doidão, roqueiro e por isso me achavam o máximo. Para mim, foi uma época de fracasso em que se fazia um rock medíocre, confessa.
Passados dez anos, Lobão ainda acha que o rock brasileiro está naufragando e tem apenas alguns sobreviventes. O rock nacional, se é que ele pode ser chamado assim, passa a idéia de nostalgia necrófila. Tirando Cazuza e Renato Russo, só Raimundos, Pato Fú, Charlie Brown Jr. e Ultraje são legais pacas. O Roger, pra mim é um Adoniran Barbosa. Agora, o resto das bandas toca musac, música de elevador, comenta.
O rock, define o cantor, é a linguagem do novo século, é fundamentado na literatura da geração beat, e irreverente. É por isso que eu acho um absurdo um cara como o Herbert Vianna fazer anúncio na tevê da Telemar (empresa de telecomunicações do Rio de Janeiro), que é um escândalo nacional. Logo depois, ele grava Que País é Esse? O cara não tem a mínima moral pra isso, indigna-se.
Na hora de lavar a roupa suja, Lobão não se intimida e atira farpas na política brasileira. Tenho vontade de fazer parte do meu País só que tenho vergonha dele. Eu não admito viver num país onde falta saúde, educação, cultura e o governo nada produz. No que se resume nossa cultura nacional? Numa loira oxigenada, ex-namorada de pagodeiro ou jogador de futebol? Estamos há 500 anos comendo merda e comemorando.(A.C.)





