Em meados dos anos 60, o folclore da América Latina se tornou embasamento para uma geração de compositores e intérpretes. O nuevo cancionero, na Argentina, e a nueva canción, no Chile, pregavam a unidade musical de seus países pelos ritmos tradicionais, sublinhados como passaportes para uma renovação. Posteriormente, esse projeto englobaria uma união de povos latinos em favor da liberdade decepada pela proliferação de ditaduras.
Entre esses artistas, circulavam Victor Jarra, Atahualpa Yupánqui, Violeta Parra, Inti Illimani e Pablo Milanés. Mas, para os brasileiros, a voz mais marcante deste período foi a da argentina Mercedes Sosa. O nuevo cancionero atraiu a música brasileira, ganhando participações de Chico Buarque, Milton Nascimento, Tarancón e Geraldo Vandré.
As ditaduras se esfarelaram, a aproximação musical virou um imenso mercado fonográfico e a união de povos da América Latina enroscou no toma-lá-dá-cá financeiro dos empacados Mercosul e Pacto Andino. A realidade continua distante dos ideais, e talvez por isso Mercedes Sosa não encontrou motivos para mudar discurso e estilo musical em ‘‘Al Despertar’’, disco que está saindo pela Polygram/Universal.
O lançamento condensa suas características: a mistura de ritmos tão variados quanto o huayno e a chacarera, entoados por instrumentos tradicionais como charangos, sem dispensar pianos e violoncelos. A voz de características andinas, embora nascida na Argentina, continua vigorosa aos 62 anos.
Datada para alguns, representativa para outros, o fato é que Sosa continua com um trabalho uniforme, sem grandes novidades, mas com boa produção. Amadurecida, a intérprete atenta para arranjos cuidadosos, que servem como pano de fundo para contracenar com seu canto condoído.
Mercedes Sosa surpreendeu a família, em 1950, ao cantar uma música folclórica em um festival na província de Tucuman, onde nasceu. Na época, folclore suscitava preconceitos. Décadas depois, Sosa permanece fiel às origens.

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