O precário estado de conservação de um órgão de fole instalado na Paróquia Santa Terezinha, em Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina), levou o estudante Felipe Zanin Zanoni, 17 anos, a iniciar uma campanha para restauração do instrumento musical. Ele procurou a reportagem da Folha para convocar a comunidade em busca de soluções para o problema por entender se tratar de um serviço de utilidade pública.
Há cerca de um mês, o estudante – que tem formação musical em piano – decidiu criar a Associação de Proteção à Cultura (APAC) com o apoio de sua avó, Eulália Zanin. ‘‘Buscaremos doações visando a restauração do órgão. Queremos também criar um coral lírico. A idéia é trazer um especialista para fazer o orçamento e depois arrecadar fundos para a reforma. Isso é uma relíquia de Sertanópolis e não pode ficar abandonado’’, alega.
Outra aliada do estudante é a professora de piano Clélia de Oliveira Rabelo, de 71 anos. Há mais de três décadas, ela era uma das pessoas que tocavam o instrumento em casamentos realizados na igreja. ‘‘Naquela época sempre tinha gente para tocar o órgão, que ainda era conservado’’, lembra.
O instrumento foi adquirido nos anos 50 pelo padre Domingos Giroto. Até o início da década de 70 ainda era possível ouvir o som do órgão de fole da igreja, mas logo depois ele foi deixado de lado, apesar da revisão feita em 30 de novembro de 1977 (data registrada a lápis numa das portas de madeira do instrumento).
O padre Benedito Libano de Souza, pároco da Santa Terezinha há quatro anos, diz não ser contra a restauração do órgão de fole, mas sinaliza com alguns pontos que, na sua opinião, devem ser levados em consideração. ‘‘Em primeiro lugar, a paróquia não tem recursos para custear a restauração. Também será preciso arrumar pessoas para tocar o instrumento, pelo menos uma vez ao dia, senão pode estragar novamente. E há de se levar em conta ainda que a manutenção desse órgão não é fácil’’, enumera.
Outro detalhe apontado pelo padre é que o órgão de fole não é mais adequado à liturgia. ‘‘Esse é um instrumento dos grandes mosteiros. Com a reforma do Concílio Vaticano II, a sua utilização ficou fora das normas da Igreja. Pode até ter outras finalidades, mas não a missa’’. Padre Benedito justifica que o instrumento é patrimônio da paróquia e tem que ser deixado na igreja. ‘‘Podemos montar uma comissão e examinar tudo isso’’, diz.
Há cerca de três anos, padre Benedito teria mandado limpar e envernizar o órgão, instalado no mezanino da igreja. No ano passado, chamou um técnico de Curitiba para fazer o orçamento. Sem dinheiro, nada foi feito. A deteriorização do instrumento é visível. Por fora, pode-se notar a madeira e os tubos danificados. Na parte interna, encontram-se tijolos, fiação e tábuas soltas, além de muita poeira.
Felipe Zanoni ainda localizou dentro do órgão uma série de partituras em latim. ‘‘Queria levar para restaurar, mas não obtive autorização. Então, embrulhei-as em um plástico e pedi para guardar no escritório da Casa Paroquial’’.
Com o início da campanha, outras pessoas manifestaram seu interesse em contribuir com os planos de restauração do órgão. O professor aposentado e advogado Jurandir Batista Januário soube da iniciativa e se engajou nesse movimento. No ano passado, ele mesmo havia localizado o técnico para fazer o orçamento da restauração do órgão. ‘‘A igreja pediu que eu encontrasse alguém para desmontar o instrumento e fazer a avaliação. O técnico fez o orçamento e cadastrou o órgão, mas a restauração não foi realizada por falta de verba’’, conta.
O advogado lembra que, na época, ‘‘foram encontrados até ninhos de passarinho dentro dele. O técnico tirou tudo e fez a limpeza dos tubos’’. Januário, que tocou o mesmo órgão no final da década de 60, ainda guarda alguns registros relativos à construção do instrumento. ‘‘O órgão foi montado por Henrique Lins em Indaiatuba (SP) e chegou à matriz de Sertanópolis em 8 de dezembro de 1951. A inauguração aconteceu em 13 de abril de 1952’’, revela. Originalmente construído com um sistema de pedal para acionar os foles, o órgão foi adaptado com a colocação de um motor.
Januário comenta que além do valor histórico, o instrumento tem um valor afetivo muito grande. ‘‘Muitas coisas se perderam no tempo, mas lembro do som maravilhoso emitido pelo órgão... uma sonoridade especial, à toda prova. Não se compara aos órgãos de hoje. É uma raridade e requer uma restauração artesanal’’.
Serviço: Interessados em colaborar com a APAC podem entrar em contato com Felipe Zanoni (43) 232-2275, Eulália Zanin (43) 232-1214 ou Clélia Rabelo (43) 232-2648.

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