Soprano Mirella Freni faz duas apresentações em SP
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terça-feira, 27 de julho de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 28 (AE) - A soprano italiana Mirella Freni não se esquecerá jamais da noite de 31 de janeiro de 1963. No Scala de Milão, logo após a cortina descer e o público, a contragosto, voltar para casa, ainda inebriado com a "Bohme" que haviam presenciado, o maestro Herbert von Karajan, o regente da produção dirigida por Franco Zeffirelli, foi até o camarim da cantora, abraçou-a e, com lágrimas nos olhos, elogiou-a: "Esta é a segunda vez em minha vida que eu choro; a primeira foi na morte de minha mãe".
A responsável pela incontinência lacrimal do regente está em São Paulo, pela primeira vez, para dois concertos, nos dias 4 e 6, no Teatro Municipal, na série dos "Patronos do Teatro Municipal", cantando obras de Rossini, Verdi, Puccini, Massenet e Tchaikovski, ao lado do maestro Stefano Ranzani. Será que você é mais durão do que von Karajan? Vá e teste sua resistência lírica com la Freni em cena. Talento precoce - Ou melhor, com Mirella Fregni, o verdadeiro nome dessa soprano nascida em 1935 (que ela perdoe a inconfidência, necessária para mostrar a longevidade da sua bela voz) e iniciou sua carreira aos 10 anos cantando Puccini num concurso de talentos mirins no rádio. "Gigli, que estava lá, chamou-me e avisou-me: Você tem algo especial, garota, mas não comece ainda a cantar tão jovem, porque vai acabar destruindo esse lindo presente que Deus lhe deu; foi a minha sorte", conta Mirella.
"Esperei até os 17 anos para iniciar minhas aulas e, por isso, ainda tenho a minha voz", explica. "Os jovens de hoje, muito ambiciosos, não querem esperar o momento certo de fazer o papel adequado e põem tudo a perder: é preciso paciência
amadurecimento, porque o sacrifício que o canto exige não é pouco", avisa a soprano aos mais afoitos. É essa sabedoria que a ajuda a enfrentar a concorrência dos palcos e o fanatismo fundamentalista dos loucos líricos. "Essa é uma profissão baseada na troca constante: eu dou o máximo de mim para o público e, ele, devolve, em entusiasmo, outro tanto e assim por diante". Charme e carisma - Medo de vaias? "Não tenho, pois se não estou perfeita, cancelo minhas apresentações; somos humanos e, logo, sujeitos ao erro". Mas poucas vezes os ouvidos de seus fãs foram perturbados com notas impuras. Ainda hoje, a voz de Mirella encanta pela pureza e pela amplidão, inabalada mesmo com a passagem de soprano lírico para dramático, há alguns anos. Acrescente a isso, charme e carisma em cena e terá uma idéia do que ela é capaz. Em especial, fazendo a doce Mimi, da "Bohme"
de Puccini.
"É, sem dúvida, o papel de minha vida, pois me identifico inteiramente com essa figura tão boa, embalada pela música maravilhosa de Puccini", conta. "Para que eu aceite cantar uma parte, é preciso que me identifique com ela, a fim de que possa dar a expressão exata do que vai em seu íntimo, a ponto de não poder dissociar a minha paixão daquela vivida pela personagem".
Que pena o seu colega de infância, Luciano Pavarotti, não ter mantido as mesmas crenças. "Somos ambos de Módena, crescemos juntos, tivemos o mesmo professor e vivíamos juntos, como dois irmãos; é sempre um prazer cantar a seu lado, pois nos entendemos perfeitamente bem em cena, apenas trocando olhares", revela. E foi na sua cidade natal que Mirella estreou, em 1955, como Micaela, da "Carmem", de Bizet. O papel de moças boazinhas parece agradar em cheio a italiana que batizou sua filha em homenagem à fiel consciência de d. José. Curiosamente, ao contrário da ópera, onde o tenor sempre conquista a soprano, la Freni cedeu aos encantos de um baixo, o búlgaro Nicolai Ghiaurov, com quem está casada há mais de duas décadas. Em 1963, fez a célebre "Bohme" ao lado de Karajan. Zeffirelli, o seu diretor cênico, lembra da noite de estréia com idêntico entusiasmo. "Aquela montagem foi o reconhecimento que me davam em Londres e Nova York, mas me era negado em minha pátria", escreve em sua autobiografia. "Até então, eu era um rapazinho de Visconti, mas a partir daquela noite eu me transformei em Franco Zeffirelli", continua.
Durante os ensaios, Mirella ganhou o coração endurecido do germânico Karajan. O maestro chegou a parar de reger, encostou-se no pódio e acenou aos músicos da orquestra para que seguissem, a partir de então, a cantora. Mais: num desabafo de seu eu feminino, o teutônico da batuta confessou que se tivesse que nascer uma cantora, queria nascer Mirella Freni. Uau.
O amor, porém, teve rusgas. Anos mais tarde, durante uma "Traviata", também com Zeffirelli, a soprano viu-se vítima de cartas anônimas ameaçadoras (diziam que ela falharia em cena), enviadas, acredita-se, por claques da dupla demoníaca que dominava o Scala, Maria Callas e Renata Tebaldi. Mirella cedeu às pressões e estava entrando em pânico com a chegada da data da estréia. Noite fatídica - Karajan, confiante na sua alma gêmea de saias, não quis desgastar a diva com ensaios, apesar dos avisos de Zeffirelli. Na noite fatídica, o diretor até implorou ao regente para abaixar o registro da orquestra, a fim de ajudar a pobre cantora. Outra vez, o maestro negou. No agudo gioia, da ária de Violetta, Mirella errou feio, guinchou e ganhou uma estrondosa vaia geral. Em vez de contentar-se com os aplausos mirrados dos mais generosos, insistiu em voltar em cena apenas para mais apupos, que, irada, respondeu com o punho em riste, no melhor estilo napolitano. Cortina abaixada, público histérico e o maestro furioso.
Após uma conversa ríspida com a soprano, ele, estoicamente e com passadas de militar, voltou para o seu lugar e, perplexo, foi recebido com uma sonora vaia. Pela primeira (e última vez), Herbert von Karajan, o todo-poderoso da música clássica, foi apupado como o pior dos tenores de província. A produção, caríssima, teve uma temporada relâmpago de dois dias. "Ainda assim, trabalhar com Karajan foi a grande experiência de minha vida e sentia-me livre sempre que estávamos juntos, embora em 20 anos de convivência profissional, nunca pude descobrir quem era o homem por trás do artista genial", recorda. Aquela, aliás, não foi a última desventura da diva. "Durante um "Don Giovanni", em que eu fazia Zerlina, correndo do sedutor, eu passava, veloz, por entre um emaranhado de árvores artificiais"
lembra. "Só que uma delas enganchou em minha roupa e quando percebi estava presa a uma enorme estrutura, segurando-a para evitar que caísse em cima de mim; uma alma caridosa se embrenhou no escuro e me soltou, não sem que eu me perdesse toda nos tempos, agarrada àquela árvore", conta Mirella, entre boas risadas. Outra boa lembrança da cantora (desta vez, no melhor estilo) foi a direção do cineasta Luchino Visconti, com quem fez
em 1967, uma "Traviata" (essa bem-sucedida), no Covent Garden
de Londres. "É a outra aventura inesquecível de minha carreira, aprendendo com aquela figura fantástica, que conhecia música e drama tão bem e que me mostrou a riqueza cênica que uma ópera pode ter, além da beleza musical", diz, elogiando o diretor de "Rocco e Seus Irmãos". Com os grandes - Estar com os grandes, aliás, é outra receita de Mirella para a grande arte. "Maestros, por exemplo, nunca são um problema, como se costuma pensar: basta que se perceba que estão lá para nos ajudar e respeitá-los por isso", ensina. Com certeza, se Karajan reencarnasse, travestido de Mirella, certamente não compartilharia dessa sua modéstia. Mais um dos encantos dessa doce diva de lirismo infinito.


