Soprano em isolamento canta árias na janela

Professor de Cornélio Procópio passa dias em "camarote" na ópera do isolamento da soprano Begoña Alberdi, em Barcelona

Patricia Maria Alves - Grupo Folha
Patricia Maria Alves - Grupo Folha

Da janela de seu apartamento, o professor de direito, natural de Cornélio Procópio, Eder Fernandes avista a arquitetura do século 19 do charmoso bairro de Sant Antoni, na cidade de Barcelona . "Parece uma arena visto daqui". O belo domingo (23) é o último dia de "Estado de Alarma" - o confinamento espanhol para conter a pandemia da Covid-19 - que durou mais de dois meses. O país iniciou, na última segunda-feira (25), a fase 1 da reabertura.


A soprano Begoña Fernandes interage com o público na janela: ópera diariamente durante o isolamento no bairro de Sant Antoni, em Barcelona
A soprano Begoña Fernandes interage com o público na janela: ópera diariamente durante o isolamento no bairro de Sant Antoni, em Barcelona | Reprodução
 


Eder espera para ouvir pela última vez a voz desconcertante da soprano Begoña Alberdi, sua vizinha. "Foram 62 dias, ela não nos faltou nenhum dia sequer, sempre às 20 horas, logo depois que homenageávamos os profissionais da saúde com palmas, Alberdi levantava sua voz e nos encantava", conta ele que considera esse um período marcante em sua vida, trajetória e carreira. 




Alberdi começou a cantar no dia 14 de março, logo após o anúncio do Estado de Alarma, nas primeiras palmas dadas aos profissionais de saúde em Barcelona, sua cidade natal. Em entrevista ao El País Espanha a soprano contou que estava angustiada em casa e com vontade de cantar e Albert seu marido lhe disse "e por que não?" Então ela colocou a cabeça na janela e cantou. 


| Autor: Patrícia Maria Alves
 




Para Eder, ouvir a voz ressoar pelo ar em meio ao desespero da pandemia foi um alento. O professor doutor em direito da Universidade Federal Fluminense está na Espanha para completar seus estudos de pós-doutorado. Desde 2018 Fernandes migra de cidade em cidade por compromissos universitários, foi um período efervescente para a sua carreira como conta para a reportagem. "Quando faltava seis meses para o fim do meu período de estudo, eu decidi vir para Barcelona para escrever meus artigos e coordenar as atividades em que eu desenvolvia daqui. Era uma cidade vibrante e cheia de vida, perfeita para conciliar trabalho intenso e diversão". 


No entanto, logo que chegou, em novembro de 2019, Fernandes enfrentou o frio, um período que as pessoas ficam mais em casa e quando em fevereiro ele "embalou a sair" um dos congressos mais importantes no qual estava à frente foi cancelado com o surgimento do primeiro caso de Covid-19 na universidade. Na conta de Eder, mais de 50 brasileiros estavam com as passagens compradas para o evento. "Mais de R$5.000,00 cada, era difícil explicar para os brasileiros o que estava acontecendo." Poucos dias depois o governo anunciou o fechamento total.



Vista da janela do apartamento de Eder Fernandes em Barcelona: bairro virou 'palco' das apresentações da soprano Begoña Alberdi
Vista da janela do apartamento de Eder Fernandes em Barcelona: bairro virou 'palco' das apresentações da soprano Begoña Alberdi | Eder Fernandes (Arquivo Pessoal)
 


Dia 16 de março era meu aniversário, eu tinha feito planos. Ia encontrar uma grande amiga que vivia em La Rochelle, na França e de lá eu ia conhecer Paris, cantar parabéns na Torre Eiffel. Não conheço Paris. O fechamento aconteceu no mesmo dia e não podíamos mais sair". Begoña pode não saber, mas naquele dia ela teve um papel especial na vida do procopense. "Eu a ouvi cantar da janela e descobri que era seu vizinho, a partir daquele dia eu filmei e compartilhei em minhas redes sociais suas apresentações, para que meus amigos e família pudessem acompanhar o que acontecia aqui. Foi a minha vida nos últimos dois meses. Agora que estamos entrando na fase 1 de reabertura meu período aqui está acabando e preciso voltar ao Brasil. Acho que vou viver duas vezes a pandemia".


Eder, talvez não saiba que ao fazer isso, também foi muito importante para Alberdi. A soprano conta no artigo para o periódico espanhol que como cantora de ópera não tinha a repercussão que obteve com o compartilhamento de seu canto em redes sociais quando foi descoberta por seus vídeos. "Nós cantores de ópera não somos youtubers, minha conta no Instagram não chegava a 100 seguidores (...), acredito que seja hora de nos aproximarmos do grande público". Hoje a soprano tem mais de 3 mil seguidores em seu perfil e seus vídeos estão rodando o mundo.


.
. | Reprodução
 





Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Tudo sobre:

Últimas notícias

Continue lendo