Sons que revelam a cultura
Sons que revelam a cultura
Quando saio do meu país saio como artista e não como político. Quero, então, falar da arte do Burundi. Foi com essas palavras que o líder do grupo Tambores do Burundi, Gabriel N Tabago, conseguiu se livrar da curiosidade dos jornalistas a respeito da crise política que seu país atravessou durante longos anos e que provocou sucessivas guerras civis. Diplomático, ele diz que no Burundi - um país com cerca de 6 milhões de habitantes e colonizado pela Bélgica - na verdade não houve guerras e sim sucessivas crises e
mal-entendidos entre a população civil.
Metonímias à parte, N Tabago queria mesmo era falar à vontade sobre os seculares tambores, maior expressão cultural do Burundi. Há, segundo ele, várias lendas que explicam o surgimento de tais instrumentos, feitos de troncos de grossas árvores e recobertos pelo coro de vaca, um animal sagrado em seu país. Uma delas conta que há muito tempo um rei, retornando do exílio forçado por causa de seus perseguidores, ganhou uma pele de vaca de um mago.
O cansaço era tanto que fez o soberano esticar a pele sobre o chão para poder descansar. Ele só não percebeu que onde se deitou havia um buraco com uma serpente. O bicho, querendo sair do seu ninho, começou a bater a cabeça sobre o corpo do soberano provocando um som abafado. Nascia, pois, o Tambor do Burundi.
N Tabago conta que anteriormente a tradição de bater o tambor era passada de pai para filho, numa espécie de legado musical. Hoje qualquer pessoa toca, mas nenhum dos grupos tem a mesma qualidade que o nosso afirma. Tocar um desses instrumentos requer principalmente conhecimento e reverência às tradições já que, de acordo com os nativos, o som produzido pelos tambores é sagrado e pode induzir o ouvinte ao transe.(A.M.J.)





