Entre arranjos de alaúdes e rabecas, uma voz soprano entoa melodias do século 14, às vezes acompanhada por um tenor. O clima medieval que recheia o CD ‘‘Codex Reina’’, do grupo Continens Paradisi, lançado em agosto na Suíça, reflete a tendência européia de se pesquisar música antiga - ainda escassa no Brasil.
ReproduçãoPor trás da sonoridade das baladas e rondós do disco estão três londrinenses. Thais Ohara, Marcelo Ohara e Rogério Gonçalves formaram o Continens Paradisi em 1992, em decorrência dos estudos do trio na Schola Cantorum Basilienses, em Basiléia, na Suíça.
O conjunto, além de pesquisar música medieval e renascentista, abriu espaço para uma série de apresentações independentes do currículo da Schola Cantorum. Os estudantes cuidavam desde a organização do concerto até a escolha do repertório.
Thais, Marcelo e Rogério chegaram à Suíça como integrantes do Grupo Arabesco de Música Antiga, e foram integrantes da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina. O Arabesco se mudou para a Europa para intensificar os estudos, mas, depois de alguns anos, os integrantes optaram por rumos diferentes.
Em 1994, os integrantes do Continens se apresentaram durante o Festival de Música de Londrina e no Guairinha, em Curitiba, com o nome de La Compagnie. No ano seguinte, o concerto de encerramento do curso da Schola Cantorum destacou compositores italianos do século 14. O concerto teve a participação do alaudista japonês Norihisa Sugawara e da soprano Witte Weber, da Suíça.
‘‘Nós tocamos com uma das sócias de uma gravadora na Itália, e comentei com ela sobre o nosso trabalho. Ela gostou e gravamos o primeiro disco’’, comenta Thais Ohara, em entrevista realizada por telefone.
O álbum de estréia do Continens Paradisi trouxe uma coletânea de compositores italianos do século 14, e a formação do grupo contava com Witte Weber, Thais e Marcelo Ohara nas rabecas, Rogério Gonçalves na percussão e Norihisa Sugawara no alaúde.
Chamado ‘‘Donna, S’Amor M’Invita’’, o disco saiu em 96 pela gravadora italiana Symphonía Digital com bom acabamento e encarte detalhado, com as letras das músicas e sua tradução em inglês. O repertório incluiu Johannes Ciconia, Francesco Landini, Guilielmus de Francia, Vincenzo da Rimini e vários anônimos.
O segundo CD, ‘‘Codex Reina’’, foi gravado em 1997 e destaca compositores franceses do século 14, como Guillaume de Machaut, Anthonello de Caserta e Jacob Senleches, além de anônimos. Também lançado pela Symphonía, o trabalho mantém a qualidade do anterior, e o encarte traz textos em cinco idiomas: italiano, inglês, francês, alemão e espanhol.
Entre as novidades do ‘‘Codex Reina’’ está a participação do brasileiro Agileu Motta, no alaúde, e do tenor americano Eric Mentzel. Em algumas faixas Mentzel faz ótimos duetos com Witte Weber, ressaltando melodias aparentemente simples - esta impressão se dissipa numa segunda audição.
O resultado é um álbum produzido com profissionalismo e pesquisa minuciosa. ‘‘Codex Reina’’ é um manuscrito medieval que armazena mais de 200 composições italianas, francesas e flamencas. O disco traz peças francesas da primeira parte do Codex. A interpretação do Continens Paradisi envolve também liberdade de improviso em execuções convincentes. Embora fiel à reconstrução sonora da época, o disco pode agradar ouvintes desacostumados à música antiga.
Os novos projetos do Continens Paradisi envolvem uma homenagem aos 500 anos do descobrimento. ‘‘Pensamos em fazer um CD com músicas de 1.500, da renascença, que eram tocadas em Portugal na época do descobrimento. Nossa idéia é levar uma série de concertos ao Brasil com esse programa’’, comenta Thais Ohara. O grupo já está atrás de patrocínio para viabilizar a idéia. Os discos ‘‘Donna, S’Amor M’Invita’’ e ‘‘Codex Reina’’ serão comercializados na Zona do Aroma, na Avenida Higienópolis, 602, loja 15, em Londrina.

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