Sons de uma morte anunciada
SONS DE UMA MORTE ANUNCIADA
Depois de anunciarem pela enésima vez que o rock acabou, confira alguns lançamentos da pesada
Carlos Augusto Oliveira
Especial para a Folha
ReproduçãoBlack Science, segundo CD de Terry Geezer, fundador do Black Sabbath
O rock morreu. Esta afirmativa, muito mais um desejo do que uma constatação, vem sendo feita praticamente desde o nascimento do rock nos anos 50. O twist, o hully-gully e outros ritmos dançáveis e que proporcionavam diversão para toda a família, surgiram para substituir o subversivo rock-n-roll.
Na verdade, esta morte anunciada pelo inimigo não incomoda. Mas quando o anúncio vem de dentro, devemos prestar mais atenção. Ou não? Nas entrevistas dadas para a promoção do Load, seu penúltimo CD, os integrantes do Metallica anunciaram a morte do heavy metal. Quando o Bruce Dickinson saiu do Iron Maiden, declarou para quem quisesse ouvir que os fãs de heavy metal não tinham a cabeça mais aberta do mundo.
ReproduçãoDead, CD do ObtuaryPouco tempo depois o Metallica foi obrigado a lançar mais um CD, com as sobras de estúdio do trabalho anterior, exatamente aquelas canções mais pesadas, mais heavy metal. Já Mr. Dickinson gravou um disco considerado grunge, que não vendeu nada, voltou ao heavy metal e hoje faz shows mundo afora com um repertório que inclui várias músicas do velho e bom Iron Maiden.
Enfim, se o heavy metal não goza de sua mais perfeita saúde, já que este não é o seu projeto de vida, está vivo e gritando. Tanto nas vertentes mais novas, de bandas como Korn, Limpid Biskit, Deftones ou o fantástico Soulfly do Max Cavalera, como em nomes mais tradicionais. Veja alguns exemplos de CDs lançados recentemente no país.
ReproduçãoHalf Nelson, o primeiro CD do Groop DogdrillTerry Geezer Butler, baixista fundador do Black Sabbath, recentemente chegou aos 49 anos de idade, envolvido na enésima reformatação do velho Sabbath, agora com a volta do Ozzy, e com sua outra banda, que já foi GZR e agora é Geezer e que lançou seu segundo CD, chamado Black Science. Se nuanças setentistas são notadas neste trabalho, principalmente por alguns climas sabáticos, a impressão geral é de modernidade, graças ao trabalho de músicos mais jovens como o guitarrista e co-autor de todas as músicas, Pedro Howse e o vocalista Clark Brown.
Geezer Butler apresenta um trabalho original, falando de sua infância na pequena Brum, no interior da Inglaterra, ou dos pesadelos da vida contemporânea. A utilização de recursos eletrônicos é criativa, valoriza o trabalho, não o pasteuriza. Altamente recomendado para fãs de guitarras pesadas, sejam ou não fãs do Black Sabbath.
ReproduçãoThe Big Knockover, CD do No Fun At AllAliás, Geezer matou a charada quando declarou numa entrevista no ano passado que o heavy metal não morre porque nunca foi mainstream. Não se ouve metal no rádio até a exaustão, por isso ele mantém seu vigor.
Um dos nomes mais queridos da cena death metal, o Obituary está de volta com um CD gravado ao vivo e muito adequadamente chamado de Dead. Este é o quinto disco da banda dos irmãos John e Donald Tardy,
ex-motoristas de caminhão de lixo em Tampa, na Flórida. E um disco ao vivo é sempre uma boa oportunidade de se revisitar antigos hits da banda, como Slowly We Rot, de 1989 ou Cause of Death, de 90 e verificar que mantém suas principais virtudes.
O Obituary sempre foi reconhecido por utilizar ritmos mais lentos e principalmente pelos vocais bastante característicos e originais de John Tardy. Este talvez seja seu disco mais pesado. São 16 petardos destinados a explodir orelhas menos acostumadas. E muito bem-vindo.
Afinal, trata-se de uma das bandas criadoras do death metal.
Metallica, Megadeth, Anthrax e Testament eram os quatro grandes do thrash metal mundial. Foram as bandas que conseguiram projeção global e moldaram o estilo. Com a debandada do Metallica, seu sucesso comercial a partir do álbum preto e de canções como Enter Sandman e The Unforgiven, músicas que romperam as barreiras colocadas pela mídia e atingiram um público jamais imaginado por qualquer banda metal, o Testament e centenas de outras bandas mundo afora perderam o rumo.
Que fazer? O Anthrax apostou por um tempo na fusão com o hip-hop, tentou voltar ao thrash com pitadas de som industrial e não se deu bem. O Megadeth incorporou um guitarrista virtuose - Marty Friedman - e se mantém como uma banda bastante original graças às idiossincrasias de seu líder Dave Mustaine.
Já o Testament tentou seguir as pegadas do Metallica, compondo algumas belas baladas, perdeu o público que tinha e não atingiu o que não tinha. Despediu o seu virtuose da guitarra - Alex Skolnick - e a banda voltou às mãos do vocalista Chuck Billy e a fazer um som brutal e sem frescuras pop.
Esta é a tônica de seu trabalho desde o CD Low, de 94. Neste novo disco, chamado Demonic, o caminho já parece bem mais claro. Na fronteira entre o thrash e o death metal, Chuck Billy alterna os vocais entre o gutural e o muito gutural, as guitarras de Eric Peterson e Glenn Alvelais são muito bem trabalhadas, com timbres bem escolhidos e sem exageros. O baixo de Derrick Ramirez traz o peso adequado e a bateria do grande Gene Hoglan, velho conhecido da cena metal, é aquele misto de técnica e violência que o tornaram um dos melhores instrumentistas do gênero.
Pena que Hoglan não esteja mais no Testament. Afinal, para o bem ou para o mal, a constante mudança de bandas é outra de suas características. Demonic é o melhor disco da carreira do Testament e vale a pena ser ouvido.
Guitarra, baixo e bateria; whisky, cerveja e garotas; muita energia juvenil, raiva incontida e aquela vontade de detonar os calhordas. Rock básico, sem frescuras, soando igual seja na garagem, no estúdio ou no palco. Absolutamente low-tech em suas 13 faixas. Lindo. O mundo tem salvação. É Half Nelson, o primeiro CD do Groop Dogdrill.
Não seria exagero chamar este quinteto de Bad Religion da Suécia. Mas também não seria justo. Esta nova corrente do punk rock, chamada de hardcore melódico, tem seus seguidores espalhados pelo mundo todo e seu Q.G. no sul da Califórnia. De lá saíram para o estrelato bandas como Offspring e Green Day, com suas melodias pop e sua atitude (talvez pose seja mais adequado) punk.
No entanto, o clima na Califórnia é bem mais favorável ao surf ou ao skate do que na gélida Suécia. E isto se reflete na banda. As letras do No Fun At All não têm aquela qualidade positiva dos californianos, nem para a diversão e nem para o politicamente correto.





