SONS DA TRIBO
Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
Nos séculos XVI e XVII um grupo de índios guaranis compunha música erudita, tocava em orquestras e excurcionava pela Europa. Três famílias descendentes dessa república-livre guarani, como ficou conhecida, preservam o dom da música e agora gravam um CD, um vídeo documental e um clipe.
Liderados pelo maestro João José Félix Pereira, os guaranis vieram viver em Piraquara (Região Metropolitana de Curitiba), numa chácara cedida por amigos, onde estão construindo uma nova aldeia. É próximo a este lugar que o CD e o vídeo estão sendo gravados.
Não só pelo caráter musical, mas também pelo histórico, o maestro acredita que o trabalho pode ajudar a tornar conhecido um capítulo importante da história do Brasil. Alguns europeus chegavam a comprar os instrumentos fabricados pelos índios. Na Itália, por exemplo, há violinos do século XVIII, feitos de pau-brasil e importados daqui, confirma. Se não fossem bons, não os levariam, uma vez que a Itália é a terra do violino.
O maestro acredita que o CD e o vídeo possam ajudar a mudar a imagem dos primeiros habitantes do País, usualmente associada a uma cultura primitiva. Os índios dominam as técnicas de tocar flautas, harpas e violinos, além de participarem de um coral.
O CD Oporaí, o canto sagrado dos guaranis começou a ser gravado há duas semanas. As doze faixas do CD trazem seis cantos autênticos, sem a interferência branca; duas, que foram resgatadas do século XVII e que receberem grande influência da cultura medievel e renascentista, apresentada aos índios pelos jesuítas; as outras são músicas instrumentais tocadas pelos mais idosos. Há ainda uma composição apenas para vozes, o canto mântrico chamado de Mongarahei.
O pôr-do-sol, a montanha sagrada, os animais da floresta seus deuses e crenças fazem parte do rico repertório dos guaranis. Os antepassados desses índios viveram num local chamado Ywapeyu, em terras do Paraguai, Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Entre Foz do Iguaçu e Guaíra era a sede da república-livre e havia escola de música e um coral de mais de cem vozes.
Os índios eram evoluídos, cultivavam o trigo, o milho, tinham gado, faziam tecelagem de algodão e eram extremamente místicos. Isso facilitou muito o trabalho dos jesuítas, que aproveitaram o refinamento da cultura guarani para desenvolver o dom inato, reconhece o maestro.
Os índios foram dizimados pelos bandeirantes paulistas e portenhos. Na verdade, havia uma lei que proibia a fundição de ferro. Mas os jesuítas desobedeceram essa norma para fundir sinos. O medo era que os índios se armassem, conta João José. A república-livre sobreviveu 200 anos e ainda hoje há ruínas que comprovam a sua existência.
Alguns remanescentes fugiram para a Serra do Mar e fixaram-se em Palmeirinha e Mangueirinha (SP), no município de Guarapuava (PR), conseguindo preservar a cultura. São esses que hoje vivem na aldeia Tekowa-karuguá (Aldeia do ArcoÍris).
O grupo que executa as composições do CD Oporai, o canto sagrado dos guaranis é formado por 26 pessoas. Só há cinco brancos, o maestro e seus quatro filhos. Os demais são índios, 20 no coral chamado de Anda-Wera (Lugar do Raio) e seis na orquestra chamada de Guata-Porã (Caminho Sagrado).
Os instrumentos são os Rawé, feito de cacheta e semelhante ao violino; os tambores, chamados de Aguapu; os Mbarakái-mirin, chocalhos feitos de cabaças recheadas de conchinhas e as flautas de bambu, Mimby.
O Mbaraká, espécie de violão feito de casco de tartaruga e couro, é uma herança jesuítica, cuja origem remonta às violas medievais. Os índios também tocam uma harpa guarani que é réplica do instrumento utilizado no século XVII.
O projeto está sendo executado pela Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Siemens do Brasil e da Paraná Equipamentos. A verba de renúncia fiscal destinada para o projeto é R$ 36 mil. Mas para complementar o projeto com o vídeo e promover um show de pré-estréia, os empresários entraram com um pouco mais de recursos. Para fazer mais cópias do CD e do vídeo ainda será preciso mais dinheiro.
Saudação ao sol
Confira abaixo a letra de uma
música de saudação guarani
Ñanderu Papa Tenonde / Ñanderu Ñamudu Nandem /
Oukwen Ma Rogueru / Tatra Orejeé /
Roguero wya / Ikwai Wa / Guarani
Nosso pai / primeiro e último
é verdadeiro /
Nosso pai / sol resplandescente
Nós trouxemos o fogo / para junto de nós /
E saudamos o povo da nação GuaraniÍndios guaranis que vivem em Piraquara gravam disco, vídeo documental e clipe. CD terá doze faixas, sendo seis de cantos autênticos
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