Sons celestiais

O gospel invade o mercado fonográfico
e conquista generosos espaços na mídia
Iara LessaÉrika Pelegrino
Enquanto no céu Deus brinca de gangorra com santos que foram homens de pecado, na Terra o mercado fonográfico se volta cada vez mais para os sons celestiais, apregoa o cantor e compositor Zeca Baleiro. O sujeito mais underground que ele conhece, o Diabo, está perdendo a sua vez e o mundo inteiro vai virar um heavy metal do Senhor, profetiza.
Zeca Baleiro faz uma alusão ao boom da música gospel. Nos anos 90, inúmeras bandas em todo o Brasil começam a sair das igrejas e viram fenômeno no mercado fonográfico. A combinação dos mais diversos ritmos - reggae, funk, pagode, samba, bossa nova, rock, heavy metal - e a palavra de Deus torna-se uma fórmula de sucesso.
Nos Estados Unidos, país de origem do gospel, esse gênero musical é um filão tão significativo do mercado fonográfico que concorre até ao prêmio Grammy. Muitos cantores americanos famosos iniciaram suas carreiras nas igrejas evangélicas: Elvis Presley, Louis Armstrong, entre outros.
O fenômeno do gospel brasileiro pode ser avaliado através do crescente número de gravações, shows, apresentações para públicos que chegam até a 100 mil pessoas. E, principalmente, pelo crescimento dos pontos de venda. Além dos dois mil específicos para CDs de músicas evangélicas no Brasil, os grandes magazines, supermercados e lojas de discos já têm CDs gospel.
O espaço na mídia também é um termômetro deste fenômeno. Várias rádios pelo Brasil afora se dedicam ao gospel. Há também programas de televisão e revistas destinadas à música cristã.
Bandas e grupos ligados a igrejas não deixam a desejar em qualidade técnica. Contrabaixo, guitarras, baterias, instrumentos pesados fazem parte destas bandas e grupos que se aproximam cada vez mais do profissionalismo. Egner Gil, produtor e programador da Rádio Café e líder da banda Conquista, garante que o Paraná tem muitas bandas de excelente qualidade e talentos que ainda nem foram descobertos.
Zion, Conquista, Nova Aliança, Kairós, Videiras são apenas alguns dos muitos grupos ligados às comunidades evangélicas e bandas gospel. Alguns já com CDs gravados. A Zoe Produções Limitadas, ou Zoe Music, cujos sócios são da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, lançou no último dia 24 o segundo CD de música Gospel ‘‘Deus de Toda Glória’’.
O trabalho envolveu mais de 250 pessoas. Não se trata de uma banda, mas um grupo que envolve evangélicos de mais de 10 igrejas, ‘‘para que a comunhão seja maior’’, explica a secretária da Zoe Music, nome fantasia da produtora, Eliana Calixto Bernardo. O CD traz músicas de autoria do ministro de louvor Davi Silva, de Rodolfo Montosa e uma de Fabrizio Salabai; um coral de 187 vozes, um coral de 70 crianças, além de backing vocal e instrumentos.
Para Eliana Bernardo, o espaço na mídia foi fundamental para a divulgação da música gospel. A Rádio Café, com uma programação 100% Gospel, serviu de alavanca para a proliferação desse tipo de música em Londrina. Michel W. Smith, Ron Kenoly, Maraya, Amy Grant, Ademar de Campos, Asafe Borba, grupo Renascer Praise, Oficina G3, Katsbarnea, entre outros, são os mais tocados.
Com um espaço maior na mídia, o preconceito em torno da música cristã, por ser considerada monótona, está cada vez menor. Com suas raízes no blues, o gospel nada tem de monótono. No final do século 18 escravos africanos mesclaram aos hinos protestantes elementos de sua tradição musical como ritmos sincopados e o padrão de pergunta/resposta.
Surgia desta forma o chamado negro spirituals. O termo gospel foi introduzido nos anos 20 por Thomas A. Dorsey, que era um cantor de blues da Georgia, filho de um pastor batista. Ele se tornou o primeiro e mais influente compositor desse gênero.
Segundo o diretor da Vencedores por Cristo, produtora e distribuidora de São Paulo, Uassyr Verotti, no Brasil o gospel chegou há 35 anos, quando americanos fundaram a Igreja Vencedores por Cristo. Durante quase uma década o que se ouvia eram apenas as traduções das músicas americanas.
Em 1973 surgiram as primeiras composições nacionais. ‘‘De Vento em Popa’’, primeiro disco lançado só com músicas brasileiras, foi censurado pelas igrejas evangélicas que tinham dificuldades em aceitar a palavra de Deus em ritmos como samba e bossa nova.
Na década de 80 o disco é liberado e começam a surgir as bandas e cantores evangélicos, paralelamente ao fenômeno do crescimento das igrejas evangélicas. Shows como o do SOS da Vida, da Igreja Renascer em Cristo, reúnem milhares de pessoas em estádios de São Paulo. Os cultos com muita música chamam a atenção das pessoas e a música gospel ganha espaço.
Em 1990 acontece o boom. Em Londrina, segundo Egner Gil, o fenômeno se deu no início da década de 90, quando uma equipe de evangélicos passou a organizar eventos que contavam sempre com bandas gospel. Para Eliana Bernardo, o mercado está crescendo em parte porque a música gospel saiu das igrejas e não está voltada apenas para evangélicos, mas para outras religiões. ‘‘Os carismáticos, por exemplo, também ouvem a nossa música.’’
Segundo Uassyr Verotti, que prefere falar em música cristã, e não gospel, ‘‘este boom é decorrente de um marketing muito bem-feito voltado para o pop.’’ A Vencedores por Cristo, embora faça músicas em todos os ritmos, tem preferência por ritmos brasileiros, como samba e bossa nova. ‘‘É a nossa linguagem, a nossa cultura predominando’’, justifica.
Egner Gil acredita que independente de gospel ou cristã, a tendência da música que traz a palavra de Deus é crescer cada vez mais. ‘‘Trata-se de uma semente que está frutificando. É bíblico: a tendência de toda semente, se semeada, é crescer e dar muitos frutos’’, afirma.

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