Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Nenhum artista, seja ele quem for, subiu sozinho na carreira. Por detrás do êxito, invariavelmente tem pelo menos uma alma boa que ajudou na empreitada. O sucesso apaga essas lembranças. Para não ser injusto com seus benfeitores o Duofel gravou pela Trama um CD que tem por título um agradecimento ‘‘muito sincero’’, segundo eles: ‘‘Atenciosamente Duofel’’.
A história do nome carregado de intenções está fincada numa viagem que o duo estava fazendo com Hermeto Pascoal. Conversa vai, conversa vem e Hermeto puxou esse assunto, sobre aqueles músicos que ele ajudou e jamais citaram seu nome quando se reportam ao passado. Tinha mágoa nesse relato.
Luiz Bueno e Fernando Melo, que formam o Duofel, não só ouviram o desabafo, como se colocaram no papel de quem deixa para trás o reconhecimento. Com 20 anos de estrada e muita história a contar, mudaram o título do quinto disco – ia se chamar Música Plena – e oferecem as 12 faixas para pessoas importantes a eles.
Este é o primeiro trabalho que sai pela Trama, e pela primeira vez em sua carreira o duo tem um tratamento à altura. ‘‘Fizemos o disco que queríamos, cercados por tudo aquilo que sempre imaginamos, desde o técnico de som aos músicos. Ficamos muito felizes por termos hoje uma gravadora que respeita o artista, e com o resultado do trabalho, porque é a sonoridade que queríamos’’, disse Bueno.
Das 12 músicas, dez são composições dele com Fernando Melo. Porém todas são homenagens que eles fazem a quem merece o agradecimento. A primeira faixa traz ‘‘Procissão’’, de Gilberto Gil. Reverência aos tropicalistas ‘‘que admiramos e nos ajudaram muito’’: Gil, Tom Zé, Caetano Veloso.
‘‘Subindo o Tapajós’’ é para Sebastião Tapajós. Em 93 ele convidou o duo para uma turnê européia, possibilitando ao público ouvir os representantes da nova escola brasileira de violão. O título sugere um rio, pois o que se viu nessas apresentações foi ‘‘um encontro das águas, uma pororoca melódica’’.
Tetê Espíndola e o Duofel estiveram juntos durante sete anos, como se fosse um trio. Para ela é dedicada a música ‘‘Floresta dos Elfos’’. Hermeto Pascoal é o homenageado da quarta faixa, ‘‘Azul da Cor da Manteiga’’. O grupo mineiro Uakti está explícito já no título: ‘‘Fax para Uakti’’.
Outra influência para o duo de violões são os Beatles. No disco eles são lembrados na música ‘‘Norwegian Wood’’. O tablista indiano Badal Roy, muito ligado ao jazz, tornou-se amigo do duo em 1993, durante o Free Jazz Festival. ‘‘Toda vez que a gente toca com ele ao ar livre, chove’’, dizem os violonistas. Por essas e outras batizaram a música de ‘‘O Amigo da Chuva’’.
‘‘É Pra Jards’’, como diz o título, remete a Jards Macalé, que significava ‘‘a voz do morro na veia da Tropicália’’. Com esta homenagem a dupla saúda ‘‘a irreverênncia do carioca na música brasileira’’. ‘‘Boissucanga’’, nome de uma praia do litoral paulista, foi também o nome de um grupo de rock progressivo onde Fenando Melo e Luiz Bueno tocavam (guitarra e baixo elétrico, respectivamente), juntamente com Armando na bateria. Depois de três anos, descobriram que ‘‘o caminho seria outro’’.
‘‘Atenção: Lombada!’’ vai para Zé Geraldo: ‘‘Com ele praticamos nosso lado pop, tocando guitarra e baixo, além dos violões’’. ‘‘Jazz à Vienne’’ faz uma saudação ao violonista e compositor francês Michel Jules, falecido em 97. ‘‘Enquanto vivo divulgou o Duofel por onde quer que estivesse’’. ‘‘Garoando no Bixiga’’ é uma reverência ao povo de São Paulo, através da figura de Adoniran Barbosa ‘‘e seus sambas malucos’’.

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