Sonoridades hipnóticas
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segunda-feira, 21 de abril de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
De todos, eles são os mais perfeccionistas. Eram três, agora só um integrante sobrou do núcleo original. Coube a Robert ''3D'' Del Naja produzir sozinho o quarto disco do grupo inglês Massive Attack, que se notabilizou na última década por inventar as batidas arrastadas do trip hop.
Trip hop, na verdade, foi um rótulo cunhado pela revista Mix Mag para designar uma derivação de música eletrônica caraterizada por texturas sombrias, beats lentos, guitarras climáticas, vocais melancólicos, abundância de samples, ruídos lúgubres e influências de hip hop e dub jamaicano.
O Massive Attack teria formulado o estilo no álbum ''Protection'', de 1994. De lá para cá, o que era inovação virou clichê explorado à exaustão pelos diversos herdeiros e diluidores da vertente. O próprio Massive Attack já não soa antecipador de tendências em ''100th Window'' (EMI), o novo álbum, embora mantenha o rigor estético intacto.
De repertório homogêneo, o disco apresenta faixas padronizadas num mesmo andamento, com sutis variações de cadência. A atmosfera entorpecida e soturna permanece recobrindo as composições com arranjos gélidos e camadas de efeitos. Mais do que incursões por um ritmo ou outro, a ênfase recai para a sonoridade ambient.
Desta vez, com a saída de Andrew ''Mushroomns'' Vowles e o desligamento supostamente temporário de Grant ''Daddy Gee'' Marshal, Robert Del Naja aventurou-se sozinho no estúdio acompanhado apenas do produtor Neil Davidge, com quem escreveu todas as músicas. ''Grant tirou uma folga, um descanso, porque teve um filho, e está começando uma vida nova'' explica Del Naja em depoimento reproduzido no material de divulgação da gravadora.
Não há certeza, porém, sobre o retorno do colega. Nos últimos anos, aliás, muito se falou sobre a iminente dissolução da banda. Os três fundadores do Massive Attack nunca esconderam que apenas ''se toleravam'', o que os fazia inclusive evitar dar entrevistas coletivas para não escancarar as divergências internas diante dos entrevistadores.
Agora sozinho no comando, Del Naja potencializou as experimentações eletrônicas filtrando as influências do hip hop, dub, reggae e soul que tanto marcaram as primeiras gravações do grupo e que eram trazidas principalmente por Mushroom e Grant Marshal. Menos acessível que ''Mezzanine'', o disco anterior, a densidade do material tende a espantar ouvintes de primeira viagem.
Nos parâmetros habituais do mercado de música pop, a apelo é igual a zero. A exemplo dos álbuns anteriores, ''100th Window'' traz novamente uma voz feminina nos vocais. A convidada da vez foi a irlandesa Sinéad O'Connor, que sucede respectivamente a Shara Nelson (colaboradora em ''Blue Lines'', álbum de estréia de 1991), Tracey Thorn (''Protection'', 1994) e Liz Frazer (''Mezzanine'', 1998).
O reggaeman Horace Andy, que participou de todos os discos do grupo, volta a cantar em duas faixas. Del Naja canta com voz sussurrada em quatro delas, incluindo ''Future Proof'', que abre o repertório e é o ponto alto do disco. Sinéad O'Connor imprime intensidade dramática em ''What Your Soul Sings'', remetendo a canção ao universo trágico do Portishead, outro grupo expoente do trip hop.
A cantora destaca-se ainda em ''Special Cases'', pontuada por dissonâncias e conduzida por uma linha pulsante de baixo. O baixo é enfatizado ainda em ''A Prayer for England''. ''Name Taken'' combina psicodelia com ecos de dub. Fechando o disco, a hiponótica ''Antistar'' traz uma colagem de riffs repetitivos de guitarra, camadas de efeitos e timbres de música oriental.
O parto do CD foi demorado, o que não é novidade na trajetória da banda. Semanas foram gastas para dar retoque final às composições. Quando o CD chegou às lojas européias, em fevereiro, Robert Del Naja mal sabia a enrascada em que se meteria dias depois do lançamento. Na letra de ''A Prayer for England'', uma parceria sua com Sinéad O'Connor, eles alertam o mundo para a onda de sequestros, maus-tratos e assassinatos de crianças.
Mas por uma desagradável ironia do destino, o artista foi acusado e preso sob acusação de delitos ligados à pedofilia na Internet. Os críticos especializados ainda saudavam o lançamento, quando a imprensa sensacionalista entrou em campo para sugar até o caroço a ocorrência policial. Del Naja foi detido em sua casa em Bristol (cidade da oeste da Inglaterra) e libertado mais tarde após pagamento de fiança.
A polícia apreendeu computadores e confiscou vídeos numa invasão feita de surpresa. No mês passado, os investigadores decidiram retirar as acusações após vasculhar os pertences e não encontrar nada que fosse ligado a material pornográfico infantil. Apesar do vexame, e do trauma, Del Naja foi um dos artistas pop ingleses mais atuantes durante os protestos contra a invasão norte-americana ao Iraque.
Chegou a encabeçar uma passeata anti-guerra ao lado de Damon Albarn (do Blur). Agora, ele prepara uma turnê mundial para divulgar ''100th Window'', além de programar o lançamento de um DVD de curtas e animações para 2004.


