Abençoado saxofone. Não fosse ele talvez não existisse o jazz tal qual o conhecemos. Se não existisse o jazz, não existiria o Free Jazz. E se não houvesse o Free Jazz, o Brasil talvez nunca visse os patriarcas da eletrônica Kraftwerk, como em 1998, e os heróis da guitarra indie Sonic Youth, como agora.
Aos primeiros acordes de ‘‘Schizophrenia’’, na quinta-feira, no Rio, a banda nova-iorquina Sonic Youth corrigia o erro histórico (não dela) de nunca ter tocado no país, em quase 20 anos de estrada.
‘‘Schizophrenia’’ aliviava ainda a angústia de olhos e ouvidos que presenciaram, minutos antes, Sean Lennon tascar ‘‘Panis et Circenses’’, com o ex-mutante Arnaldo Baptista no palco e tudo, no embaraçoso final de seu show.
Sonic Youth, sem entrar no mérito do barulho e da vanguarda, é uma banda fashion. Mesmo formado por roqueiros quarentões, o grupo tem postura de extrema beleza no palco, seja no estilo largado de Thurston Moore, seja no vestido estampado vermelho da dama loira Kim Gordon.
A banda foi buscar dois hits alternativos de 16 anos atrás para mostrar seu cartão de visitas aos brasileiros. Com ‘‘Schizophrenia’’ e ‘‘White Cross’’, ambas do álbum ‘‘Sister’’, o Free Jazz nunca experimentou tamanha distorção, a marca desta banda de art-rock que influenciou mais de 99% das bandas de guitarras que surgiram do meio dos 80 para cá.
Durante as duas músicas de abertura, os desavisados que passassem do lado de fora do MAM poderiam acreditar que o prédio passava por uma reforma maciça.
Ao seu mais recente CD, ‘‘NYC Ghosts & Flowers’’, lançado em maio, o Sonic Youth dedicou quatro canções, no meio do show. A maior parte do set foi composta por hits perpétuos do grupo, como ‘‘Bull in the Heather’’, ‘‘Koo Thing’’, ‘‘Death Valley’69’’ e a insuperável ‘‘Teenage Riot’’.
‘‘Koo Thing’’ merece um comentário. O show atingia sua metade quando a apaixonante Kim Gordon largou seu baixo, para pular, correr, dançar, rolar pelo chão e incitar o público durante o clássico do disco ‘‘Goo’’ (1990). ‘‘Venha aqui, não seja tímido. Há algo que eu quero perguntar a voc꒒, provoca a roqueira, com energia absurda para quem já é uma senhora de 47 anos.
Seja proporcionando a mais incessante distorção de guitarras (três) ou nos (poucos) momentos líricos, o Sonic Youth parece mesmo uma banda de garotos se divertindo muito no palco.
Sabe aquela mãe que grita para o filho: ‘‘Menino, pára com esse barulho’’? Todos os integrantes do grupo parecem responder em uníssono: ‘‘Não paro’’, com aquele sorriso maroto de satisfação. O mesmo sorriso com que todos saíram do MAM, depois daquele show espetacular. A banda fez outro show na sexta-feira em São Paulo.