Seria muita ingenuidade, subestimar a passagem pelo Festival de Cannes de "Aquarius", o filme brasileiro que concorre à Palma de Ouro. Como mostraram as fotos estampadas em muitos jornais impressos e nas redes sociais, toda a equipe que realizou o filme e que está aqui na Riviera – do diretor Kleber Mendonça Filho aos menos conhecidos membros da produção – participou no tapete vermelho de um rápido protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foi manifestação discreta, sem alarde, gritaria ou palavras de ordem, apenas contando com o poder impactante da imagem. Mas evidentemente beneficiada pela ruidosa ressonância planetária que sempre ocorre quando Cannes aciona sua voz e multiplica ao infinito as novidades aqui produzidas. Políticas, muitas vezes, não apenas artísticas.

Sonia Braga, 65. Nada, nenhum sinal de botox, nada de silicone. Beleza primaveril em Cannes, outonal no Brasil. Deslumbrante em sua caminhada pelo tapis rouge, ainda presentes muitos traços de Dona Flor, de Gabriela, daquela fatal mulher aranha. Uma das raras estrelas já produzidas pelo cinema brasileiro, Sonia está em Cannes pela quarta vez – "Eu Te Amo (1981), "O Beijo da Mulher Aranha" (1986) e "Rebelião em Milagro" (1988) – magnetizando o espectador como a resistente, elegante e culta aposentada Clara, personagem que praticamente não sai de cena durante as imperceptíveis duas horas e vinte que dura o filme, travando batalha feroz contra a especulação financeira que faz de tudo para tirá-la do apartamento que é parte visceral de toda uma vida. Uma façanha que protagoniza com enorme talento e que a qualifica como uma das favoritas para levar o premio de interpretação deste festival.

A FOLHA participou de duas conversas com Sonia esta semana. Uma, no hotel que hospeda a equipe de "Aquarius", ainda no calor do entusiasmo que se seguiu à calorosa sessão de gala de filme e exclusiva para alguns jornalistas brasileiros. E outra, a habitual coletiva aberta à imprensa mundial.

Carismática, a atriz foi muito aplaudida por onde passou. E também quando respondeu às questões mais delicadas. Sobre as ultimas décadas de sua carreira longe do Brasil, não teve duvidas em atribuir a responsabilidade à Rede Globo. Mesmo afirmando que adora fazer telenovelas, ela processou a emissora carioca por conta das muitas reprises de novelas nas quais atuou e pelas quais ela (e muitos outros atores) nunca recebeu um centavo: "Apesar de achar que sempre tive e tenho direito, a Justiça entendeu que não. E eu perdi".

Sobre "Aquarius", ela considera "um presente do Kleber, um personagem que tem muito de mim, um belo retrato de mulher num momento em que o cinema vem sendo ingrato com as atrizes, principalmente as mais velhas. Quando se referiu a Clara, a crítica musical aposentada que interpreta no filme, Sonia aproveitou para falar sobre a sexualidade na terceira idade: "Não existem verdades universais sobre o assunto", disse ela ao responder a uma pergunta sobre que conselhos sobre sexo daria às mulheres da sua idade. "Cada uma é diferente. Talvez eu possa dar a minha receita", ironizou a eterna Dona Flor do clássico de Jorge Amado levado às telas há exatos 40 anos pelas mãos de Bruno Barreto. "Na ocasião Jorge me deu varias receitas, mas nenhuma foi boa. Cada mulher tem de olhar sua vida e fazer aquilo que sente, mas tem de existir amor. É importante preservar o sentido daquilo que cada um sente, daquilo que é prazeroso para si mesmo".

Ainda no mesmo tema, ela acrescentou: "Hoje em dia vivemos num mundo em que nós mulheres de 65 são aquelas de 20 que viviam há um século". Sonia deplorou que a sociedade teima em separar o individuo da sua sexualidade "Apesar de tudo o que se diz sobre mulheres e hormônios, pela menos a metade é mito. Como nós continuamos a levar para todos os cantos todos os órgãos do nosso corpo, a sexualidade também nos acompanha sempre. Os sentidos e a beleza nos convertem em seres sexuais, e isso é valido para qualquer pessoa, de qualquer sexo e qualquer idade. Ontem conheci um jovem de vinte e poucos anos que me disse que era muito tímido. Disse a ele que não perdesse tempo e que conseguisse logo uma namorada..."

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