Sonhos manifestos em sucata
SONHOS
MANIFESTOS
EM SUCATA
Alunos da Escola Oficina de Londrina criam modelitos e materializam a fantasia
Érika Pelegrino
César AugustoEles estão acostumados a desfilar ao som de vaias, marcados pelos maus-tratos e desesperança. O palco que conhecem muito bem é árido, machuca os pés, destrói sonhos. As cortinas raramente se abrem para aplausos. Despir-se da realidade e vestir fantasias confeccionadas pelas próprias mãos, tecidas com pedaços de sonhos, desejos contidos, é unguento em feridas abertas no dia-a-dia.
César Augusto
Ex-crianças e adolescentes de rua que fazem parte da Escola Oficina de Londrina (Acalon) tiveram seus cinco minutos de fama, na última sexta-feira, durante um desfile de moda realizado por eles. Durante meia hora cruzaram a passarela ao som de muitos aplausos, pisando em um palco colorido. Sem muita intimidade com sonhos, momentos de glória, expressão da própria vontade, colocaram as emoções e desejos nas roupas que eles mesmos confeccionaram.
Pouco importa se a manifestação da possibilidade de vida, se o contato com a criação foram expressos com sucata. Isto apenas valorizou ainda mais o trabalho dos 26 alunos das oficinas de cabeleireiro, costura e artes da Acalon. Jornal, estopa, rolo de durex - quando acaba, fez questão de frisar um dos alunos - saco de lixo, botão, garrafa de Coca-cola, papel reciclado, papel crepom, latas e outros materiais, deram forma aos sonhos dos alunos.
César AugustoA pequena Tatiane, de 12 anos, quando chegou à Escola Oficina tinha, entre os seus desejos, possuir um vestido amarelo. Tule, papel reciclado, pano de cortina, botão velho e Tatiane sorridente desfila vestida com seu objeto de desejo.
Entrar vestida de noiva em uma igreja toda enfeitada, ao som de Ave Maria, povoa o imaginário de muitas adolescentes. E sonho independe de endereço, não importa se o sonhador mora num bairro nobre, ou nas ruas. Paula, de 14 anos, foi noiva por cinco minutos. Uma noiva sem flor de laranjeira, sem tecidos nobres. Uma noiva de tule e garrafa de Coca-Cola ao som de Ave Maria, e a grande satisfação de ter confeccionado seu próprio vestido.
César AugustoTonico, de 17 anos, era o noivo. Antes foi o funkeiro. Camisa regata de durex e botão. Calça de saco de lixo. Traquejo e sorrisos. Quem sabe aparece uma oportunidade e a gente vira modelo, sonha. Juliana Sereia, 14 anos, transformou-se na mocinha de Titanic, por alguns minutos. A passagem da realidade para a fantasia se deu através de cortina velha, que foi transformada em um vestido. Igual ao da mocinha do Titanic.
César AugustoMelindrosas de lã de overloque, figurinos futuristas à base de papel crepon e plástico. Roqueiro de saco de estopa. Sonhos que independem do material utilizado. Sonhos que dependem de oportunidade. Sonhos que resgatam a cidadania, que recuperam a auto-estima. Isto é o mais importante. Com a recuperação da auto-estima, podemos trabalhar com eles (ex-crianças e adolescentes de rua) desde a parte de higienização até um projeto de vida, afirma o coordenador pedagógico da Escola Oficina, Silvio Ribeiro.
César Augusto





