Nova York Depois de um 2002 confuso e cheio de ameaças de novos ataques terroristas, o perfil dos brasileiros que vivem hoje em Nova York mudou. Quem pega um vôo do Brasil para os Estados Unidos encontra o avião vazio e quando volta enfrenta filas para conseguir um lugar. Muitos estão voltando para casa, desistiram e aproveitam para voltar ao Brasil com os bolsos cheios de dinheiro, graças à alta do dólar. Outros, com medo de tempos mais turbulentos na Big Apple, voltam por falta de opção em uma das mecas mundiais do consumo e do comportamento. Outros ainda resolveram retornar por já ter uma capacitação profissional que ofereça uma boa colocação em seu país de origem.
Mas a grande verdade na gangorra de ir e vir daquela que já foi chamada de terra das oportunidades é que só sobrevive hoje em Nova York quem é tão ou mais profissional que os americanos. ''Aqui não tem mais lugar para amadores. Agora só há espaço para quem tem uma capacitação profissional grande. Para quem leva a vida a sério. Não tem essa de improvisação e de jeitinho brasileiro'', declara o maranhense Herbert Teixeira Gomes, chef e proprietário do restaurante Malagueta, no bairro de Astoria, Queens em Nova York.
Gomes administra o restaurante numa época onde os brasileiros estão voltando para o Brasil, sem sentir crise. ''Temos um grande número de americanos que atravessam a ponte e vem de Manhatam para comer aqui. O nosso público é 80% de oriundos da cidade'', anuncia a esposa de Gomes, Alda que administra o restaurante junto com ele.
A história de vida dos dois na américa começou há 11 anos, quando se conheceram num clube brasileiro chamado Sob's. Juntos eles construíram uma vida de sucesso, que não está abalada pela crise entre Estados Unidos e Iraque. Como levam tudo que fazem com a maior seriedade e clareza, coisa que os americanos adoram, o casal vive uma vida tão tranquila e já pensa em abrir duas filiais: uma em Manhattan e outra no Brasil. Isto quer dizer que voltar ao Brasil, nem pensar. Os pratos que Gomes serve para clientela americana são uma mistura de elementos brasileiros como o vatapá com peixes, uma preferência atual dos nova-iorquinos. A cozinha da casa é considerada uma das melhores da cidade, tanto que já ganhou destaque num guia gastrônomico importante. ''Somos o único restaurante brasileiro que conseguiu este feito'' comemora Gomes.
Outro brasileiro que sobrevive em Nova York como cidadão local é o curitibano Luiz Golinski. Aos 25 anos de idade e há cinco morando em NY, Goliniski está confortavelmente empregado no Park Hotel, um hotel com mais de 900 habitações, na sua grande maioria ocupada por americanos de outros estados. Quando chegou na cidade o jovem não falava uma palavra de inglês e chegou a trabalhar como garçom por um tempo. Foi só depois que adquiriu uma fluência perfeita da língua inglesa que sua vida realmente mudou. ''Vivo aqui como se fosse um deles. Respeito suas regras e procuro usar até os mesmos termos de respeito que eles usam entre si'', conta.
Um outro fator que ajudou o curitibano foi o fato de ele ter uma característica rara entre os frios americanos. Golinski é paciencioso e carinhoso com quem tem que lidar no hotel. Ele trabalha no front-desk, um setor onde são administrados todos os serviços de check-in e check-out do Park Hotel.
E para emplacar em Nova York atualmente só com muito profissionalismo mesmo. Quem ganha pouco não tem jeito de sobreviver. Mesmo se desprezarmos o fato do real estar profundamente desvalorizado em relação ao dólar, as coisas estão muito caras. Um aluguel num pequeno apartamento de um quarto no bairro Queens, reduto de brasileiros, custa, no mínimo, mil dólares. Os imóveis são disputados quase que a tapa pelos imigrantes. Quem tem um bom local para morar, muitas vezes conseguiu uma sublocação, prática ilegal e comum em Nova York.
Esta realidade truncada e competitiva acabou por dificultar muito a vida de quem quer ficar nos Estados Unidos. Está aí também mais um motivo para muita gente estar voltando para casa. Quem está de malas prontas e feliz por voltar ao Brasil é o mineiro Luciano Marzano. Depois de viver anos nos Estados Unidos e de ter uma história de sucesso, Marzano está cansado da rigidez que vivem os americanos.
Trabalhando com turistas brasileiros (que diminuiram em volume, mas continuam indo em qualidade para a cidade), o mineiro volta para seu país para amparar o filho de 18 anos que está prestes a prestar vestibular com emprego garantido e com a cabeça aliviada. ''É muito difícil viver aqui. Existem coisas desgastantes, como o trânsito. Além de não podermos estacionar em lugar nenhum da cidade, ainda temos que pagar uma fortuna de estacionamento
(uma hora de estacionamento em Manhatam pode custar US$ 20)'', reclama.
A história destes brasileiros que sobreviveram ao ano de 2002 em uma cidade que virou um dos lugares mais perigosos do planeta, parece que ainda deve mudar muito nos próximos anos. Assim como Marzano volta ao Brasil, por ter cansado do alto custo de vida americano e aposta numa nova vida, muita gente deve tentar o caminho inverso. Mas é bom se preparar: estudar inglês antes de iniciar a aventura e ter preparo para segurar a dura rotina de trabalho dos americanos é mais do que um conselho é uma ordem para quem quer sobreviver em Nova York.

mockup