Sonhos dos filhos
Melk escuta rap desde criança, influenciado pelo ambiente cultural em que cresceu no Jardim União da Vitória 1, zona sul de Londrina. Começou a compor profissionalmente aos 17 anos, estimulado pelas oficinas de hip hop promovidas no Centro de Atendimento Integrado a Criança (CAIC) da vila.
"Eu já escrevia rimas antes, mas foi em 2005 que passei a levar o negócio com profissionalismo. Participei de batalhas de rimas e venci uns campeonatos paranaenses. Depois comecei a participar de batalhas em outras cidades. Fui a Joinville (SC), Curitiba e São Paulo", lembra.
Atualmente, é um dos artistas mais representativos do movimento em Londrina. O que antes era apenas diversão, virou seu projeto de vida. "Já trampei de tudo: fui fiscal da Zona Azul, fiz parte da Liga dos Engraxates, fui empacotador num supermercado. Fiz um monte de coisas. Hoje sou MC. É minha profissão, o meu trabalho", afirma.
No bairro, é conhecido de todos. Sua família mudou-se para lá quando ele ainda não havia completado 1 ano de idade. Antes, moravam "de aluguel" no Jardim Jatobá. No início, ergueram um barraco, que ao longo de 25 anos foi ganhando tamanho e cômodos para abrigar toda a família. Melk é o mais velho de cinco filhos. "Tenho um casal de gêmeos e criei dois sobrinhos como filhos", diz a mãe do rapper, Clarice Aparecida Marcondes da Silva, de 47.
Ela conta que na época da mudança, o União da Vitória 1 era identificado com os sem-terra, porque havia ali um assentamento de trabalhadores rurais. Também era considerado uma região perigosa, foco de violência e criminalidade. De lá para cá, o lugar passou por transformações contando com um comércio estabelecido que gera emprego e renda para os moradores.
Dona Clarice, hoje separada, é professora no Centro de Educação Infantil Boa Esperança do Jardim Franciscato (zona sul). Ela lembra que o pai de Melk queria que o menino arrumasse um emprego em vez de se dedicar ao rap. "Um dia, sentamos, conversamos e Melk falou: 'Mãe, eu não quero trabalhar. Eu quero fazer música, quero cantar rap'. Eu apoiei a decisão dele. Sei que é difícil. Ele está nessa carreira há dez anos e só agora ficou conhecido. Mas meu sonho não é vê-lo rico, ganhando dinheiro. Quero que ele seja feliz. Eu criei meus filhos para eles serem felizes. Minha vida é trabalhar para fazê-los felizes, independentemente de eles terem dinheiro ou não. Acho que os pais devem respeitar os sonhos e a filosofia de vida dos filhos. Foi-se o tempo em que a gente escolhia os caminhos por eles", diz.
Ela explica que, além de respeitar os desejos dos filhos, está tentando realizar seu próprio sonho. "Quando eu era menina, sonhava em ser assistente social. Há alguns anos, voltei a estudar e atualmente estou cursando o terceiro ano de Serviço Social. Pago R$ 300 por mês na universidade. É um sacrifício. Mas se Deus quiser, estarei formada em 2016", salienta.
Melk, por sua vez, planeja investir na carreira artística. "Quero fazer mais shows e trabalhar em estúdio na produção de vídeos e na parte instrumental das composições. Quero levar a música mais longe", afirma. Mãe e filho estão juntos nessa batalha da vida que, às vezes, rende rimas. (N.S.)





