SONHOS DA FLORESTA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de janeiro de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Em toda floresta existe um cantinho secreto. Um lugar meio escondido onde vivem seres que nunca vemos. Esse canto da mata também abriga um pedaço de nossa imaginação.
Dona Mariana Encantada, um feiticeira que habitou a região Norte do Brasil muito tempo atrás, dizia que todos temos uma mata dentro de nós. Uma floresta em que também existe um cantinho meio escondido. Um canto secreto onde ficam os sonhos, tudo aquilo que ninguém consegue explicar.
Dona Mariana Encantada faz um ilustre visita ao livro Mata - Contos do Folclore Brasileiro lançado pela Editora Companhia das Letrinhas. Como presente ao público infanto-juvenil, traz algumas das mais tradicionais histórias da tradição oral do folclore das regiões Norte e Nordeste do Brasil.
Escrito por Heloisa Prieto e ilustrado por Guilherme Vianna, o livro possui sabor parecido com cocada recém tirada do forno. Reconta seis tradicionais histórias populares que provocam alegrias, tristezas, medos e, acima de tudo, passam um espanador de pó na imaginação retirando a poeira acumulada pelo tempo.
Mata possui uma história central que une todos as lendas narradas. Tudo começa quando uma menina chamada Larissa precisa fazer um trabalho sobre folclore para a escola. Resolve então conversar com a velha cozinheira chamada Dona Mariana, famosa por conhecer antigas narrativas do folclore brasileiro.
Enquanto prepara um doce de coco no fogão, Dona Mariana vai narrando as histórias que conhece para Larissa. Mal termina uma e a menina rapidamente pede outra e mais outra.
Entre as histórias contadas por Dona Mariana está uma que fala sobre uma poderosa poção, capaz de fazer a pessoa mais pacífica do mundo virar um monstro briguento. Tratado do pó de jararaca. A receita é meio complicada, pois é necessário transformar uma cobra venenosa viva em pó.
Algumas histórias sobre o boto, moço bonito e sedutor que leva belas mocinhas para as profundezas dos rios, também são narradas por Dona Mariana. Mas aquela que realmente provoca medo (na verdade só um pouquinho) fala sobre a famosa Matintapereira. Trata-se de uma velha bruxa que mora na parte mais escura das matas. Seu bafo de onça é capaz de desmaiar elefante. Fumando seu inseparável cachimbo na companhia de suas amigas serpentes, gosta de enfeitiçar crianças, deixando-as perdidas no meio da mata. As más línguas dizem que ela chega até mesmo a fazer sopa de criancinhas. Dizem ainda que as crianças malvadas dão sopa de caldo mais grosso.
Dona Mariana ensinas algumas receitas que podem ser de grande serventia. Algumas podem ser usadas durante toda a vida, como abraçar a magia dos sonhos: Às vezes, quando os sonhos têm magia de verdade, para valer, ficam colados no travesseiro. É feito lágrima, feito gargalhada, feito segredo. E se você um dia quiser ter um sonho diferente, esqueça que cresceu tanto, beba um leite morninho, apanhe seu antigo travesseirinho, deite a cabeça nele e deixa a noite levar você para bem longe, porque então tudo pode acontecer. E se você estiver diante de um dilema, de um problema bem sério para resolver, deixe para o dia seguinte. Faça como se diz no Maranhão: bote uma noite no meio. A noite é boa conselheira.
Para aumentar o feito, talvez seja interessante ler algumas das histórias de Mata antes de dormir. Com a cabeça do travesseiro e os pé naquele cantinho de floresta que abriga um pedaço de nossa imaginação.
Mata - Contos do Folclore Brasileiro de Heloisa Prieto, ilustrações de Guilherme Vianna, Editora Companhia das Letrinhas (telefone 11/3846-0801), apresentação de Lilia Moritz Schwarcz, coordenação de pesquisa de folclore de Armando Vallado, 64 páginas, R$ 19,50.


