Depois de oito anos se dedicando às artes circenses na Escola de Circo de Londrina (da qual foi uma das primeiras alunas), Gisele da Silva Rodrigues, 22 anos, pensou em desistir. Afinal, por melhor que fosse o seu equilíbrio sobre o arame, a vida começava a lhe exigir outros tipos de acrobacia - financeira, principalmente.
Seu amigo Jonathan dos Santos Lima, 18 anos, também passou por altos e baixos desde que começou a aprender as práticas circenses, há seis anos. ''Parei e voltei várias vezes'', confessa o acrobata.
Já David Aparecido dos Santos Araújo, 19 anos, procurou a Escola de Circo quando desistiu da ginástica olímpica (ele integrou a seleção paranaense infantil). ''Vim em 2007, e não gostei. Tentei de novo em 2008, e não fiquei. Em 2009, de novo. Só este ano é que comecei de verdade. Até mudei o horário do meu trabalho para fazer as aulas'', revela.
Felizmente, a persistência e dedicação foram recompensados. Os três acabam de ser agraciados pela Funarte com a Bolsa para Formação em Artes Cênicas. Únicos representantes do Sul do País, eles estão entre os 15 selecionados do Brasil inteiro. Cada um vai receber R$ 20 mil para passar dez meses no Rio de Janeiro, estudando na conceituada Escola Nacional de Circo.
O trio mal teve tempo de assimilar a novidade (o resultado saiu dia 22) e já se depara com novas preocupações, como onde morar e com que dinheiro pagar a passagem e passar os primeiros dias até a liberação da bolsa. ''Além disso, eu tive que pedir demissão do cargo de auxiliar administrativo na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Foi sofrido, mas tive coragem'', comenta David.
Gisele também lamenta que não terá tempo de se despedir dos seus alunos (ela é professora em um projeto social), pois estão em férias. E Jonathan vai precisar se afastar da mãe e irmãos menos de um mês depois de perder o pai. ''Minha mãe ficou feliz por mim, mas triste porque eu sou o filho que mais conversa com ela'', afirma, sem disfarçar a preocupação.
Mas nada disso supera a expectativa em relação à nova etapa, que começa segunda-feira. ''O mais difícil já foi, era ganhar a bolsa. Estamos largando tudo isso porque o circo é a nossa vida'', concordam.
Quem vê tanta certeza não imagina toda a insegurança que assombrou as mentes dos artistas desde o início. ''Quando vi o edital da Funarte, pensei que não era para mim. Mas aí o David disse que ia participar, e acabou me convencendo'', relata Gisele. Embora considerassem a aprovação difícil, os três amigos sentaram-se um dia a imaginar como seria ter essa oportunidade. ''Até fizemos promessa'', admitem.
Agora, sonhos que antes pareciam impossíveis, como ir especializar-se na Europa ou integrar o Cirque du Soleil, já se mostram mais ao alcance da mão. Basta eles esticarem um pouco mais o corpo - e a persistência.

mockup