Curitiba – Deve haver algum sapo enterrado próximo ao Teatro Ópera de Arame. Como um lugar magnificamente construído, num oásis em Curitiba, pode carregar um estigma tão forte? Poucas montagens obtêm êxito naquele espaço, o que deixa atordoados muitos diretores. Na estréia do 11º Festival de Teatro de Curitiba, anteontem, o diretor Gabriel Villela e a coreógrafa Cristina Machado padeceram desse mal. A estréia da versão de ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão’’, de William Shakespeare, não empolgou os curitibanos.
‘‘Sonho...’’ pode ser considerada uma das peças de enredo mais intrincado de Shakespeare, numa mimética entre real e imaginário. Hérmia foge para a floresta com seu amante Lisandro. Em seu encalço partem o noivo abandonado (Demétrio), Helena, o Duque de Teseu e sua futura esposa Hipólita. Puck, servidor dos reis das fadas Oberon e Titânia, encanta a todos durante uma noite mágica. Basicamente, esse é o enredo. No entanto, quem não conhecia com profundidade a história apenas assistiu a uma sucessão de cenas desconexas.
No palco da Ópera de Arame, a dança cênica mineira absorveu a identidade visual do diretor, nos figurinos, na movimentação clown, na overdose visual. Todas as referências de ostentação barroca Gabriel Villela se afunilam num caldeirão pós-moderno, que não receia em combinar estilos díspares. Na encenação de ‘‘Sonho...’’ entrou no balaio musical versões remix do ‘‘Bolero’’, de Ravel, ‘‘É o Amor’’, de Zezé de Camargo e Luciano e até baladas de Ray Coniff. Villela não teve o pudor de inserir elfos-travestis dançando como odaliscas. A digital teatral do diretor mineiro parece querer sempre somar, adicionar. Aí reside o perigo da opção de Villela, quando resolve agregar, corre o risco de saturar. Nem sempre a química entre estilos distintos acontece.
Mas o ponto de fragilidade da montagem – que teve momentos bocejantes – foi o desencontro coreográfico. Em função de uma coreografia assinada por vários integrantes da Cia. de Dança de Minas Gerais, o conjunto padeceu de falta de identidade. Ao optar pela linguagem clown como fio condutor da dança cênica, optou-se por desconstruir os procedimentos da dança clássica e contemporânea. Mas a movimentação coreográfica não alçou vôo, se estabeleceu próximo do óbvio e não aguçava a curiosidade sobre a próxima cena. O encantamento da história surgia em lampejos e desaparecia. Nessa encenação, cada bailarino da Cia. não suplantou a condição de bailarino objeto para bailarino sujeito. Mas esse é um longo noviciado, que ainda nessa montagem pode acontecer.

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