Sonho do Oscar derruba crise nos noticiários da TV
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999
Por Dib Carneiro Neto 
São Paulo, 12 (AE) - Não que Fernanda Montenegro não mereça, mas até parecia torcida pela Copa do Mundo. Por um dia, o sonho do Oscar derrubou a crise do real nos noticiários de TV. Na terça-feira, todos os telejornais lavaram a alma com a indicação da grande dama para o Oscar 99 (transmissão direta pela Globo no dia 21 de março, depois do Fantástico).
Desde que as mudanças no câmbio deram início ao tobogã de emoções no dia-a-dia da vida econômica brasileira, a pauta da TV estava literalmente necessitada de um assunto ameno, alto-astral, leve e contagiante, algo que arejasse, que fizesse um contraponto de leveza à aridez da crise monetária do País. Fernandona conseguiu. Foi relaxante ver televisão naquela dia e deixar-se levar pelo clima de patriotada que forjou um País melhor por 24 horas.
Foi impressionante. A imagem mais emblemática do sopro de alívio que a Academia de Hollywood espalhou pelos telejornais naquela terça foi o boa noite de Lilian Witte Fibe no Jornal da Globo. Era de uma descontração quase destoante do padrão Globo de conduta jornalística. Quase um suspiro, um relaxamento de tensões. Enfim, uma boa notícia - era o subtexto. Quem viu sabe que há muito tempo Lilian não encerrava seu jornal naquele tom. Afinal, não tinha motivos.
"Central do Brasil", na disputa por dois Oscars, era um bom motivo. Logo de manhã, pela Globonews, a transmissão direta da cerimônia de divulgação dos indicados deu a largada para a maratona ufanista que se seguiria até de madrugada em todas as emissoras, em menor ou menor grau.
A Globonews saiu na frente nas entrevistas, com Fernanda e o diretor Walter Salles ao telefone minutos depois do anúncio feito pelo presidente da Academia e pelo ator Kevin Spacey. No calor da hora, a agilidade caiu em sua maior armadilha: a inconsistência. Perguntas óbvias para respostas idem. E tome emoção, emoção e mais emoção. Barra forçada - Como Fernanda é contratada da Globo, o canal aberto não podia fazer feio. O Jornal Nacional desfiou um rosário de imagens da grande atriz nas telenovelas da emissora e o Jornal da Globo dedicou dois blocos inteiros à glória da artista. Revê-la, por exemplo, em cenas da novela "Zazá", um retumbante fracasso de audiência da emissora, foi uma forçada de barra desnecessária e constrangedora neste momento de consagração mundial.
E por falar em constrangimento, as emissoras agiram, naquela noite, com incrível deselegância ao mostrar a atriz no quarto de hotel, em Nova York, acompanhada do marido Fernando Torres - sem mencionar o nome do ator. Torres, um dos grandes intérpretes da história do teatro brasileiro, aparecia ao fundo e os textos dos locutores não faziam menção à sua presença. Em um dos telejornais, o ator apareceu em uma singela cena familiar, fotografando a mulher aos abraços com o diretor Walter Salles. Seu nome continuou de fora do teleprompter.
Na TV Cultura, o sempre ágil Metrópolis, ancorado por Lorena Calábria, foi o melhor da noite. Por um motivo muito simples: em vez da celebração e da euforia, investiu em reportagem. Repórteres saíram à rua e encontraram, por exemplo, duas mulheres que, a exemplo da personagem de Fernanda no filme, também escrevem cartas para os familiares de analfabetos. Também foram às filas dos cinemas e ouviram o público sobre "Central" e sobre seu principal concorrente, o italiano "A Vida É Bela". E mais: ouviram filhos e netos de sobreviventes do holocausto, tema do filme italiano, e imigrantes nordestinos no centro de São Paulo, tema do filme brasileiro. Numa noite de sonho e fantasia, Metrópolis - mais uma revista de variedades do que um telejornal nos moldes tradicionais - deu sua lição de bom jornalismo.


