São Paulo, 28 (AE) - Shakespeare e Hollywood - um casamento duradouro, mas só às vezes perfeito. A relação de obras adaptadas do bardo parece não ter fim. A série ganhou impulso depois que "Shakespeare Apaixonado" foi premiado com o Oscar deste ano. Vem mais Shakespeare por aí. Até uma das peças menos filmadas do autor, "Titus Andronicus", já foi transformada em filme (com Jessica Lange). "Titus Andronicus" estréia somente no ano que vem. "Sonho de uma Noite de Verão" - de William Shakespeare estréia amanhã (29).
É um filme de Michael Hoffman com Michelle Pfeiffer e Kevin Kline à frente de um elenco que inclui Rupert Everett, Stanley Tucci, Christian Bale, David Strathairn e Sophie Marceau. Michelle é pura festa para os olhos, o que, no caso dela, não é pedir muito. Faz Titânia, a rainha das fadas. Kline, seguindo a linha adotada pela direção, imprime certo intimismo ao farsesco Bottom. "Sonho de uma Noite de Verão" teve uma versão muito famosa, de Max Reinhardt e William Dieterle, nos anos 30. Entre outras coisas, essa versão encantava pelo histrionismo do jovem Mickey Rooney como Puck. Comparativamente
Stanley Tucci parece velho para o papel. Seguiu sendo adaptado nos 60 (duas versões de Dan Ericksen e Peter Hall) até chegar agora aos 90 com Hoffman, sem contar as livres adaptações de Ingmar Bergman (nos 50, Sorrisos de uma Noite de Amor) e de Woody Allen (nos 80, Sonhos Eróticos numa Noite de Verão). A nova versão funciona melhor em partes do que no conjunto, embora os admiradores do texto possam divertir-se com a transposição da antiga Grécia para a Itália do século 19, recorrendo a uma nova invenção (a bicicleta) para incrementar a mobilidade do relato.
Começa com a dupla Teseu e Hipólita ouvindo as queixas de dois lados sobre um casamento arranjado. Egeu prometeu a filha Hermia a Demetrius, sem se importar com o fato de que, na verdade, ela ama Lisandro. A ciranda de amores prossegue com a fuga do casal de amantes para a floresta e resolve-se com a intervenção do rei e da rainha das fadas, após uma série de quiproquós com o travesso duende Puck e o astro (Bottom) da peça dentro da peça. O diretor Hoffman participou de uma montagem amadora de "Sonho de uma Noite de Verão" quando era estudante no interior de Idaho. Ele começou a visualizar o filme partindo da imagem de um gordo e pequeno Puck atravessando a Toscana no lombo de uma tartaruga. Foi infiel a si mesmo, pois não fez um Puck nem tão gordo nem tão pequeno.
A peça possui um forte substrato mitológico, agregando ao fabuloso o universo prosaico da farsa popular. Hoffman parece não entender muito bem a celebração da desordem que está na origem do texto. Contenta-se em ostentar opulência visual, seguindo a linha que imprimiu a "O Outro Lado da Nobreza".

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