Sonho de sair das ruas
Na casa de Diego (nome fictício), 13 anos, a noite de 24 para 25 de dezembro representa pouca diferença na rotina. Eu fico brincando na rua. Em casa não tem ceia. Se sobra um dinheiro, o que é difícil de acontecer, a gente toma uma tubaína, conta ele. Diego, seus quatro irmãos mais novos e a mãe estão acostumados com a falta de quase tudo. Às vezes não tem comida. Quando chega o final do mês, a situação vai piorando. Mas aí minha mãe corre atrás, dá um jeito.
A família de Diego mora num bairro pobre na Zona Oeste de Londrina. O pai está preso na Casa de Custódia. A mãe, que trabalhava como doméstica, está desempregada. Sem o apoio de vizinhos e entidades de trabalho social, a situação estaria pior ainda.
No início deste ano, Diego parou de estudar. Estava na 2ªsérie do Ensino Fundamental. Reprovei algumas vezes porque faltava muito, matava aula para ficar na rua, admite o adolescente.
Diego é atendido pelo Espaço Vida, projeto da prefeitura de Londrina que auxilia jovens viciados em drogas. O adolescente diz que cheirou tíner pela primeira vez quando tinha nove anos. Depois, vieram outros vícios: maconha, crack. Destes, afirma ter se afastado há poucos meses ele ainda fuma cigarros comuns.
Nos últimos anos, as ruas têm sido o palco da vida de Diego. Eu ficava por aí, pedindo dinheiro para gastar em droga. Junto comigo, um bando de moleques. Hoje, quase não fico mais pela rua. Mas às vezes acontece de eu ter uma recaída, aí volto a pedir dinheiro para comprar droga, relata o adolescente.
Diego garante que nunca trabalhou para o tráfico. Mas, certa vez, foi apreendido pela polícia. Uns colegas meus foram praticar um furto e eu fiquei esperando do lado de fora. Não fiz nada, mas mesmo assim me pegaram, explica.
A melhor coisa para mim, que eu pediria de Natal, seria nunca mais ficar na rua. Vou voltar a estudar. Já está tudo marcado para o começo do ano que vem. Mas ainda não escolhi que profissão quero seguir. Perguntado sobre o que desejaria de Natal para sua família, Diego responde, com um olhar envergonhado e um riso nervoso: Não sei. Como se a falta de perspectiva tivesse cegado a capacidade de sonhar. (F.G.)





