SONGBOOK MOSTRA O MELHOR DE ELIS
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de novembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Elis Regina já foi intocável, mas acabou não escapando das revisões críticas. Talvez por isso, tenha deixado de renovar seu público e até de influenciar as novas gerações de intérpretes.
Homenageá-la, como faz o songbook O Melhor de Elis Regina, serve quase como um teste para avaliar a importância e a repercurssão de sua obra nos dias atuais. O volume chega esta semana às livrarias em mais um lançamento da editora Irmãos Vitale, que publicou recentemente títulos dedicados a Adoniran Barbosa e à banda Barão Vermelho.
Traz 28 sucessos de Elis transcritos para a pauta musical num trabalho coordenado por Luciano Alves, um pianista de formação erudita que participou da última formação dos Mutantes e atuou como arranjador em discos de Elba Ramalho, Erasmo Carlos e Pepeu Gomes. Além de melodias cifradas, inclui letras cifradas com acordes para violão.
Segundo Alves, os registros obedecem com máxima precisão às gravações originais, com exceção de algumas músicas cuja divisão rítmica da melodia foi escrita de forma simplificada a fim de tornar a leitura mais acessível. Do repertório gravado pela Pimentinha (apelido cunhado por Vinicius de Moraes), a maioria das músicas escolhidas traz a assinatura da dupla João Bosco e Aldir Blanc.
O prefácio é de Miéle, amigo da cantora e com quem trabalhou na TV na década de 70. Produzi ou dirigi muitos dos grandes nomes da música brasileira. E convivi com os demais. No entanto, ninguém como Elis me dava a sensação de uma recriação da música a cada nova apresentação escreve ele. A mesma sensação foi dividida durante anos por uma vasta legião de fãs, desde seu estouro no Festival da Record quando conquistou o primeiro lugar com a música Arrastão.
Há controvérsias em torno das diversas fases de sua trajetória, mas as opiniões coincidem quando se trata de eleger seus melhores trabalhos, não raro recaindo sobre seu segundo álbum-solo de estúdio Elis (de 1966) e ao encontro histórico Elis e Tom (1974). O primeiro é considerado um disco antecipador, no sentindo de revelar artistas que pouco tempo depois revolucionariam a MPB.
O repertório reunia canções como Canção do Sal (de Milton Nascimento), Boa Palavra (Caetano Veloso), Pra Dizer Adeus (Edu Lobo e Torquato Neto) e Lunik 9 (Gilberto Gil). Nessa época, a música popular reinava na televisão, não só com os festivais mas através de programas como Fino da Bossa (apresentado por ela e Jair Rodrigues) e Jovens Tardes de Domingo (voltado para a jovem guarda).
Elis ganhou até o epíteto de cantora de TV por ser uma pioneira à frente das câmeras . Pouco antes, o golpe militar havia impulsionado tomadas de posição política por parte dos artistas, gerando um ambiente tenso nos palcos. Elis e Nara Leão batiam bocas na imprensa disputando o título de intérprete dos oprimidos. A primeira chegou a promover uma passeata contra a guitarra elétrica, o que já revelava o anacronismo de suas opções estéticas.
Com o triunfo do tropicalismo, ela passou à rabeira da MPB. Irregular nos discos dos anos 70, Elis ainda pode entrar para a história do período como uma reveladora de compositores gravando e lançando gente como Ivan Lins, João Bosco, Belchior, Sueli Costa, Fagner e Renato Teixeira. No palco, cada vez mais encarnava a idéia da intérprete visceral, inflando o perfil com um domínio técnico impecável.
Em 1979, tornou-se involutariamente a porta-voz da anistia com a gravação de O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. A instabilidade emocional, porém, a derrubou no dia 19 de janeiro de 1982 quando ingeriu uma dose excessiva de álcool misturado a cocaína.


