Sonetos de pés sujos
Após dez anos de silêncio, Glauco Mattoso volta com versos bizarros e polêmicos, em ‘‘Centopéia - Sonetos Nojetos & Quejandos’’
ReproduçãoDetalhe da capa de ‘‘Centopéia’’, livro em que Glauco Mattoso elegeu a escatologia e a pedolatria (adoração por pés) como universo literárioMarcos Losnak
Especial para a Folha2
O conhecimento popular diz que há gosto para tudo. Há quem ache os olhos a parte mais bela do corpo humano. Há aqueles que acham a boca mais interessante. Alguns são obcecados por pernas. Outros prestam verdadeira devoção aos seios. Há também aqueles que consideram a bunda a melhor coisa do mundo. Também há aqueles que possuem verdadeira devoção aos pés.
Nesse pequeno último grupo se enquadra o poeta paulista Glauco Mattoso. Obcecado por pés masculinos, limpos ou encardidos, trata tal parte do corpo como verdadeiro órgão sexual. Não se contenta em admirá-lo, precisa lambê-los, banhá-los de saliva. Por mais estranho que possa parecer, seus escritos erguem verdadeiros louvores ao que a maioria considera nojento. Seu mais novo livro, ‘‘Centopéia’’, lançado essa semana pela Editora Ciência do Acidente, é mais um capítulo em sua lendária devoção aos pés.
Um dos grandes expoentes da poesia marginal, movimento literário brasileiro que iluminou a década de 70, Glauco Mattoso é uma verdadeira máquina de transgressão. Elegeu a escatologia e a pedolatria (não confundir com pedofilia) como universo literário. Pautado pelo homoerotismo, utilizando a sátira e o humor, fez de sua obra um testamento da própria libido sadomasoquista.
‘‘Centopéia - Sonetos Nojentos & Quejandos’’ vem quebrar um jejum de 10 anos. Seu último livro, ‘‘Limeiriques & Outros Debiques Glauquianos’’, Editora BuBolso, foi publicado em 1989. Também vem quebrar um silêncio de cinco anos sem escrever. Cego há quase quatro anos, devido a um glaucoma congênito, recolheu-se ao silêncio poético. Os 99 sonetos que compõem o livro giram, de maneira obsessiva, em torno de duas temáticas básicas: a fixação sexual por pés e a cegueira.
O processo de criação de ‘‘Centopéia’’, segundo o próprio autor, possui uma certa mística. No ano passado foi convidado por Jorge Schwartz a traduzir o livro ‘‘Fervor de Buenos Aires’’ do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 -1986), para a edição brasileira de suas obras completas.
Aos 48 anos de idade, contagiado pela espírito de Borges, escritor também cego, escreveu os 99 sonetos que compõem ‘‘Centopéia’’ nos primeiros três meses de 1999.
A insônia que o atacou nesse período também foi um dado determinando. Durante as noites de insônia, memorizava os poemas e, ao nascer do dia, ditava-os para o computador - um computador que converte a voz humana em palavra escrita. A opção pela forma soneto foi feita pelo fato dele possuir uma forma rígida, com métrica e rima, que favorece a memorização.
Glauco Mattoso não é o que se pode chamar de poeta socialmente aceito. Não pela forma que escreve, que pode ser considerada erudita, mas pelo conteúdo de seus versos. Empunhando a bandeira da transgressão, cantando de maneira direta o bizarro, cultiva uma literatura caminha às margens do consumo, bate de frente com a hipócrita do mundo. Nesse sentido, o leitor, de modo geral, pode assumir o papel de vouyeur das taras alheias.
•Centopéia - Sonetos Nojentos & Quejandos, de Glauco Mattoso, Editora Ciência do Acidente, 122 páginas, R$ 18,00.

Soneto desolado
Se é rei quem tem um olho em terra cega,
o cego é escravo em terra caolho.
As barbas já tratei de pôr de molho
ao ver pimenta ardendo num colega.
Depois que fiquei cego, ninguém nega,
meu amanhã jamais sou eu que escolho.
Se é noite o dia todo, eu só me encolho,
pois sei onde é que o pontapé me pega.
No fundo, a sensação que mais molesta
é estar preso no escuro do porão
enquanto quem enxerga faz a festa.
No chão, sentindo o peso do pisão,
um único consolo a mim me resta:
lamber a sola de quem tem visão.

Soneto sonolento
Camões pediu arrego à sua musa
como quem já deu dez e não aguenta.
O mesmo peço eu, após noventa
e nove, bem aquém da lira lusa.
Supus ter respondido a quem me acusa
de chafurdar na tara mais nojenta.
Mostrei que meu amor ao pé se assenta
no chão da mente humana, que é confusa.
Demônios são a musa duma insônia
sem dó que me persegue na cegueira,
e o sonho é só uma puta babilônia.
Mas resta-me um nova companheira:
a Morte, que é total, sem parcimônia,
e dá o que o sono nega a vida inteira...

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