Sommers faz remake de um clássico
Em 1932, estreava nas telas norte-americanas A Múmia (The Mummy), produção da Universal estrelada por Boris Karloff, que no ano anterior fizera sucesso no papel do monstro criado pelo doutor Victor Frankenstein no clássico de James Whale. Assinando a direção, Karl Freund, egresso do cinema expressionista alemão, ao qual prestara bons serviços como fotógrafo de pelo menos duas obras-primas: Metrópolis, de Fritz Lang, e Fausto, de Friedrich Wilhelm Murnau.
Na história - escrita por Nina Wilcox Putnam e Ricard Schlayer e adaptada pelo roteirista John L. Balderston -, um arqueólogo inexperiente, não tendo nada melhor para fazer, lê em voz alta o texto de um papiro que contém a oração com a qual a deusa Ísis ressuscitou Osíris, e acaba inadvertidamente despertando a múmia do sacerdote Im-Ho-Tep, cujo sarcófago fora recentemente descoberto e trazido para o Museu do Cairo. Dez anos depois, livre das bandagens, a múmia reaparece sob a forma menos decadente (mas não menos enrugada) de um homem misterioso, Ardeth Bey (Karloff) - e é realmente impressionante verificar como basta uma década para uma múmia de 3.700 anos se adaptar ao mundo moderno (do início dos anos 30) e falar inglês fluentemente. Pois bem... Im-Ho-Tep/Bey informa a um grupo de arqueólogos onde se encontra o túmulo da princesa Anck-es-en-Amon, que fora a sua amada nos tempos do bom e velho Egito. E, como este é um filme antigo, de apenas 72 minutos, logo os arqueólogos estão de volta, trazendo o sarcófago da princesa, e Bey não demora a descobrir que ela está reencarnada na jovem Helen Grosvenor (Zita Johann). Daí para a frente, a proposta do sinistro sacerdote é matar a moça para que sua alma retorne à carcaça de Anck-es-en-Amon e ambos vivam felizes para sempre como um casal de múmias vivas.
Não vou contar o final da história para não estragar o prazer de quem não viu e pode fazê-lo retirando a fita na locadora de vídeos ou assistindo ao filme no Telecine 5, que o vem reprisando regularmente nos últimos meses. Vale, porém, destacar a magnífica e contida atuação de Boris Karloff, a fotografia em preto-e-branco de Charles Stumar, a maquiagem criada por Jack Pierce (responsável pelo visual do monstro no Frankenstein de Whale) e, é claro, a eficiente e sutil direção de Freund - tão sutil que a múmia propriamente dita só aparece por cerca de 30 segundos, deixando o resto por conta da imaginação do espectador.
Não se espere a mesma sutileza da nova versão de Múmia, em cartaz no Brasil a partir do próximo dia 18 de junho. Mesmo porque deixar espaço para a imaginação é uma lição que o cinema hollywoodiano há muito esqueceu. Dirigido por Stephen Sommers (de O Livro da Selva e Tentáculos), o remake promove várias modificações na história original, a começar pela criação de um novo personagem, no qual a ação é centrada: Rick OConnell (interpretado por Brendan Fraser, de Deuses e Monstros e George, o Rei da Selva). OConnell é um legionário que, durante uma batalha travada no Egito em 1923, encontra por acaso as ruínas escondidas de Hamunaptra, a Cidade dos Mortos. Alguns anos mais tarde, enquanto definha na prisão à espera de sua execução, o legionário descobre que o fato de saber a localização exata de Hamunaptra, procurada obsessivamente e sem sucesso por arqueólogos e caçadores de tesouros, pode salvar sua vida. Assim, logo após fechar um previsível acordo, OConnell está a caminho da Cidade dos Mortos, na companhia de uma egiptóloga meio desastrada, Evelyn (Rachel Weisz), e seu irmão Jonathan (John Hannah). Durante a jornada, os três enfrentam os perigos oferecidos pelo Rio Nilo e pelas areias do Saara, o que confere ao filme uma levada de aventura que o original, de clima mais sombrio, não possuía. Chegando a Hamunaptra, o trio enfrentará uma poderosa força do mal e toda a bateria de efeitos especiais com os quais, hoje em dia, o cinema mainstream americano procura disfarçar a carência de boas idéias ou o mau aproveitamento delas. Ao que tudo indica, o diretor Sommers e os produtores James Jacks (Campo dos Sonhos, Darkman - Vingança Sem Rosto) e Sean Daniel (Brazil - o Filme, Na Montanha dos Gorilas) teriam feito melhor deixando em paz a Múmia de Freund.ReproduçãoCenas de A Múmia dirigido por Stephen Sommers: comparado ao original filme que estreará em junho deixa a desejarWilmar Klein





