Um espetáculo de vanguarda, onde nove atores e bailarinos se misturam a um violinista, um DJ e vários bonecos gigantes, é a proposta do coreógrafo holandês Pieter de Ruiter, que chegou em Curitiba há três semanas. Seu trabalho ainda é inédito no Brasil.
Ele veio ao Paraná especialmente para produzir e dirigir a montagem de teatro-dança Only The Right Things...Fall (Só as Coisas Certas Caem), que estará em cartaz de 10 a 23 de dezembro, no Teatro Cleon Jacques, no Parque São Lourenço, em Curitiba.
Com 38 anos de idade, Ruiter ostenta um currículo respeitável. Estudou na Academia de Dança Scapino, em Amsterdã. Dançou no Introdans de Arnhem, na Batsheva Dance Company de Israel e no Lyon Opera Ballet, com o qual veio pela primeira vez ao Brasil, há dez anos.
Participou de várias companhias européias de dança e, em 1990, tornou-se diretor artístico da Fundação Density. Ruiter já recebeu dezenas de premiações em vários países e possui mais de 20 obras assinadas.
O coreógrafo e bailarino gaúcho Pedro Pires, morador em Curitiba, conheceu o trabalho de Ruiter há mais de dois anos, numa viagem para Rotterdam. ‘‘Me apaixonei pela montagem que ele apresentou na ocasião, dançando na principal companhia holandesa, a Netherlands’’, conta Pires. ‘‘Era a mesma linguagem de trabalho que eu já estava desenvolvendo com a minha companhia, a Rua das Flores, em Curitiba.’’
O convite para vir ao Brasil foi feito e aceito no final do espetáculo, na mesma noite. Quando retornou a Curitiba, Pires entrou com um projeto na concorrência da Lei Municipal de Apoio à Cultura, que foi aprovado no final do ano passado. A montagem conta também com o patrocínio da Caixa Econômica Federal e está orçada em R$ 110 mil.
O espetáculo pretende viajar também para São Paulo, Brasília e para o Rio de Janeiro, onde já tem temporada agendada no Teatro Nelson Rodrigues. O elenco conta com nove pessoas, que estão ensaiando cerca de quatro horas diárias, há quase um mês.
O que você conhece sobre a dança brasileira?
Ruiter - Conheço algumas companhias, algumas danças folclóricas, o samba... Vários bailarinos brasileiros atuam na Holanda e vários espetáculos já foram para lá. Sei que eles são de ótima qualidade, mas muitas vezes são tão diferentes do que estamos acostumados a assistir e trazem uma linguagem tão brasileira que se tornam difíceis para os holandeses compreenderem. Também já trabalhei com bailarinos como Marcelo Evelin, do Brasil.
Você tem alguma preocupação diferente ao montar um trabalho no Brasil, em relação aos seus trabalhos na Europa?
Ruiter - Não planejo nada diferente, mas naturalmente se torna diferente. O meu processo de criação é todo voltado para as pessoas, para o elenco, que no caso é brasileiro. Dentro do trabalho também estão inseridos fortes referenciais brasileiros, como a literatura e a música.
Como será o espetáculo?
Ruiter - Dividido em três partes, onde o tema principal é a preparação para ir a um baile. Há um fundamento sobre o personagem da Cinderela, embora sua participação não seja explícita. O espetáculo, baseado em dois poemas de Baudelaire que fazem parte do livro ‘‘As Flores do Mal’’, mostra um contraste entre o clássico e o moderno, em relação à dança, ao teatro, à música e à estética. Ele fala também sobre o desenvolvimento do ser humano. A apresentação dura em torno de 50 minutos ou uma hora.
Você já realizou trabalhos similares em outros países?
Ruiter - Cada trabalho é totalmente diferente, mas o processo é o mesmo sempre. Já passei temporadas produzindo espetáculos na Alemanha, Itália, França e República Tcheca, além de ter levado um espetáculo pronto para o Canadá.
Você tem algum plano futuro para o Brasil?
Ruiter - Tenho muita vontade de voltar para cá. Gostaria de ser convidado por alguma companhia.Kraw PenasPieter de Ruiter (à esquerda), holandês que prepara espetáculo de dança com curitibanosSimone Mattos

mockup