A traição como tentativa de acerto. A traição como água atirada num incêndio. A traição como exercício da descoberta da própria verdade. Algo como um prato de sopa medicinal no leito de um hospital.
  Esse é o tipo de traição que persegue e atormenta o garoto Prófi, protagonista de ‘‘Pantera no Porão’’, romance do escritor israelense Amós Oz. Publicado pela editora Companhia das Letras dez anos atrás, a obra acaba de ganhar uma nova edição. Narra a conflituosa vida do garoto judeu em plena Jerusalém de 1947, época em que a cidade estava ocupada pelo exército britânico, pouco antes da criação do Estado de Israel ocorrida em 1948. Trata-se de uma romance carregado de fortes traços autobiográficos de Amós Oz.
  Em ‘‘Pantera no Porão’’, Prófi, ao lado de dois amigos, funda uma organização clandestina de resistência à ocupação britânica. Seguindo o exemplo dos adultos, o grupo infantil deseja a retirada, através da violência se necessário, do exército inglês e dos árabes da região. Para isso, brincam de fabricar bombas, utilizando sucatas, com objetivo destruir o inimigo.
  Certo dia, ao violar o toque de recolher, Prófi é apanhado por um oficial do exército inglês, o sargento Dunlop. O militar se revela um admirador da cultura hebraica e propõe um acordo. Prófi deve lhe ensinar hebraico, em troca, ele ensinará a língua inglesa ao garoto.
  Vislumbrando uma possibilidade de obter informações secretas do inimigo, Prófi aceita a troca brincando de espião. Nesse processo, no decorrer das aulas, o garoto passa a simpatizar-se com o sargento. Quando começa a admitir que ‘‘gosta do inimigo’’, seus amigos o expulsam do grupo sob a acusação de traição. Seguindo um percurso existencial e emocional, o garoto passa a explorar o conceito de traição, um sentimento que será recorrente em toda sua vida. A traição fincará as garras em sua consciência várias vezes ao longo dos anos. Após trair seus amigos com o sargento inglês, trairá o sargento com sua grande paixão platônica, na seqüência trairá o amor de seus pais.
  O narrador de ‘‘Pantera no Porão’’ é o próprio Prófi, adulto. Amós Oz cria uma voz adulta tentando desvendar a própria infância. Nesse relato coloca duas abordagens numa mesma narrativa: a percepção adulta tentando colocar-se na condição da percepção infantil; a reflexão adulta realizando uma leitura da própria infância e seus reflexos da trajetória adulta.
  Carregado de contexto histórico e geográfico, o romance é narrado por uma voz adulta revisitando acontecimentos e perturbações de sua infância. Procura reconstituir sua percepção dos conflitos sociais e individuais que o abalaram na infância apresentando suas memórias atormentada.
  O protagonista vive uma espécie de rito de passagem, precisa deixar o universo infantil para entrar no mundo adulto num contexto social de conflito. Assiste sua infância ser roubada pelo contexto social. Assiste o desfile de suas dificuldades na tentativa de entender os reais sentidos que comandam a existência adulta.
  Uma das alegorias presente em toda a extensão do romance é a imagem da sombra, da escuridão. Geralmente, ao fim de cada reflexão, Prófi chega à conclusão que ele nunca será capaz de ver e compreender realmente as coisas, apenas suas sombras. Amós Oz indica que tudo aquilo que vemos não corresponde exatamente à verdade, mas às sombras da verdade.
  Nascido em Jerusalém em 1939, Amós Oz é considerado um dos maiores escritores israelenses contemporâneos. Além de professor universitário de literatura, o escritor realiza militância em prol da paz entre árabes e israelenses. Entre seus romances publicados no Brasil estão ‘‘Conhecer Uma Mulher’’ (1992) ‘‘A Caixa Preta’’ (1993), ‘‘Firma’’ (1996) e ‘‘Não Diga Noite’’ (1997), ‘‘O Mesmo Mar’’ (2001), ‘‘Meu Michel’’ (2002), ‘‘De Amor e Trevas’’ (2005), ‘‘De Repente nas Profundezas do Bosque’’ (2007).c

- Pantera no Porão
Autor – Amós Oz
Editora – Companhia
das Letras
Tradução – Milton Lando
e Isa Mara Lando
Páginas – 150
Quanto – R$ 36,50

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