Sombras de Nélson
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de setembro de 2007
Ewaldo Schleder 
Tive dois encontros com Nélson Rodrigues. Uma vez na casa da minha tia Maria, na praia de Sepetiba, zona oeste do Rio de Janeiro. Outra em Paraty, na festa literária de todo julho. Maria costurava pra fora. Bem-humorada, falava pouco, desenhava moldes e cortava panos - com uma fita métrica nas mãos, esquadros transparentes, tesouras afiadas, austríacas. Um dia lhe perguntei o porquê da extensão daquela fita - enorme. Ela, morena de cabelos lisos e longos, amarrados, com ar brejeiro, encantadora, me disse que era para poder medir as curvas da mulher carioca.
Não sei se a resposta incluía também aquelas a quem Nélson acompanhava. Sua esposa e uma irmã. Ou uma amiga. O que lembro é a titia avisando: ''Vadico, o Nélson vem aí''. Não sei bem com que ouvidos, mas boquiaberto; sem gravador, sem câmera, sem papel, sem caneta - jamais iria aporrinhá-lo com essas coisas, ainda mais sendo ele a visita. Apenas a memória, a atenção, a reverência. Era momento único, mágico. Eu, mudo, 14 anos, sentado ao lado de Nélson Rodrigues, só os dois. Havia uma mesinha de centro, com a última revista Grande Hotel, ao lado do cinzeiro prateado. Uma samambaia e outras folhagens formavam um biombo verde, entre a pequena varanda de entrada e a passagem à sala de costuras. Onde Nélson jamais pisou, não duvido.
Tudo que fiz foi pegar a revista, folheá-la e olhar incrédulo, de través, para o mito, monumento em carne e osso. Num dado momento, voz rouca, ele se manifesta: ''a leitora habitual dessa revista...Grande Hotel...é o meu tipo preferido de mulher''; afirmava provocante, a insinuar que não era bem pra mim tal publicação. Falava comigo com responsabilidade. Avaliava minhas reações mínimas. Ensinava sobre a vulnerável condição moral da sociedade reprimida e hipócrita. Fumava, divagava a respeito de traição e fidelidade. Eu, de olhos baixos, a começar pelos pés, apreciava displicentemente as pernas da belíssima cliente, recém-chegada, saia bem acima dos joelhos, a mover-se lentamente e aterrissar na saleta de, somente, duas cadeiras. De pé, dei a ela o lugar. Depois saí.
Muito tempo passou e revejo Nélson. Ando pelas ruas de Paraty e me deparo com a figura homenageada na FLIP; com fotos, cartazes e recortes de jornais por toda parte. A alucinação bate à porta. Como se fosse pouco o delírio da própria cena, desbundante em suas presenças transeuntes: consumidores da cultura, maltas da literatura e outras artes. Os produtores, as produções. Engolidores de fogo, mímicos. Música instrumental, risadas, murmúrios. Gente mais bonita do que feia. Reina o devaneio. Vejo Nélson, encostado numa daquelas paredes, com um braço apoiado na base de uma velha janela. Olheiras acentuadas, olhos fundos, contemplativos, ar de cansaço. Do outro lado da calçada, trepado numa das pedras arredondadas, pronunciadas do chão, fixo o olhar no gênio, no homem - miragem? Percebo seguramente que ninguém pode vê-lo, ou imaginar que ele esteja ali. Não digo de carne e osso, desta vez - e me basta o encontro onírico. ''Nélson...'', pergunto-lhe. Agora sim, parados numa rua do mundo, de igual para igual. ''Nélson...o que você nota numa mulher, à primeira vista?''. Ele responde, grave, conciso: ''a alma''.
Uma pequena multidão em constante movimento passa pela nossa frente, nos espreme contra a parede. Chego a esbarrar no dramaturgo. O bate-papo é rápido. Prossigo a breve interpelação: ''E que virtude mais aprecia numa mulher''? Nessa hora, Nélson me surpreende de todo, com a seguinte resposta, em sussuro: ''a ignorância''.
Nisso, algo inesperado acontece. Nélson acende um cigarro, sua imagem se desfoca, se esvaece e se mistura à fumaça baforada. Minha vista fica escura. Longos minutos depois, num gabinete médico, sem febre, folheio um número antigo da revista Manchete. Ainda ecoa em minha mente aquela voz a declarar: ''Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da Praça Saens Pena. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor é na Zona Norte''. Era a voz de um carioca da gema, nascido em Pernambuco.
EWALDO SCHLEDER é jornalista em Curitiba


