Som para ouvidos apurados
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quinta-feira, 06 de junho de 2002
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
A Patife Band voltou às lojas. O cultuado álbum Corredor Polonês finalmente ganhou reedição em CD, quinze após seu lançamento original em vinil pela Warner. O disco virou peça de colecionador, saudado como um dos trabalhos mais estimulantes da geração anos-80 do rock brasileiro.
Com produção de Peninha Schimdt, reúne 10 composições combinando agressividade punk e experimentalismos de música erudita contemporânea. A mistura havia sido esboçada num EP homônimo de quatro faixas. Patife era liderada por Paulinho Barnabé (irmão de Arrigo), que até hoje alimenta o retorno da banda.
Na época da gravação, a formação incluía Sidney Giovenazzi (baixo), André Fonseca (guitarra) e Paulo Mello (bateria). Fugindo dos padrões, o grupo apostava numa sonoridade audaciosa calcada em módulos atonais e compassos quebrados. Canções como Pesadelo, Três por Quatro e Pregador Maldito marcavam a diferença em relação aos pares.
A atualidade do repertório pode ser conferida também na melodia e nos arranjos de Arrigo Barnabé para o Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, assim como na versão pesada para Lil Red Riding Hood, de Ronald Blackwell, rebatizada Chapeuzinho Vermelho. O mesmo se pode dizer da estridente Tô Tenso, regravada posteriormente pela banda punk Ratos de Porão.
Entrevistado ontem pela Folha, Paulinho Barnabé lembrou que a conexão com o punk registra passagens biográficas pouco conhecidas até pelos fãs da Patife, como o fato de ele ter tocado baixo durante 1 ano na banda Inocentes, uma das pioneiras do movimento em São Paulo. Ao comentar Corredor Polonês, o músico ressaltou o caráter autoral do disco.
É um trabalho de muita personalidade afirmou. O que tinha de experimentalismo ali, era espontâneo, não era forçação. Aquela era a minha linguagem musical, o que eu sempre fiz. Por isso, acho legal que ele seja relançado agora. Para os jovens, pode ser uma boa referência do que rolou nos anos 80.
Provocado a analisar o panorama roqueiro atual, Paulinho deixou a diplomacia de lado para criticar as novas bandas. Tudo está muito americanizado salientou. Tudo parece cópia do que vem de fora. Tudo gira em torno de estilos estabelecidos, definidos e aceitos pelo mercado. As bandas já aparecem ligadas ao metal, ao punk ou outro gênero qualquer. Ninguém quer buscar uma linguagem pessoal. Está faltando criatividade.
Projeto de um homem só, a Patife mantém-se viva na cabeça do músico. Há anos prometendo gravar seu terceiro disco, ele anunciou mais uma vez seus projetos, entre os quais a gravação de um CD instrumental. Estou com muito material pronto disse. Pretendo lançar dois discos, um com vocais que se chamará Pigs & Blaargh, e outro com som experimental radical reunindo um quarteto de cordas, guitarra, baixo e bateria. Mas eu trabalho num ritmo lento. Não sei quando vou entrar no estúdio. O público espera.


