Solução doméstica
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Márcio Maio <br> <br> TV Press 
Já houve um tempo em que grandes atrizes se recusavam a interpretar uma empregada doméstica ou outro personagem aparentemente sem glamour. E, por isso mesmo, profissionais menos valorizados eram constantemente chamados para a posição. Mas o uso crescente de papéis de destaque em núcleos mais pobres dos folhetins transformou muitos deles em postos cobiçados por artistas de peso. Hoje, tanto os atores já se sentem mais instigados a encarnarem motoristas, cozinheiras e mordomos, por exemplo, como também autores parecem mais dispostos a investir em classes economicamente menos favorecidas. ''Apesar de estarem no centro dos acontecimentos na rotina de milhões de brasileiros, as domésticas nas novelas são geralmente personagens periféricos. Em 'Marias do Lar', a gente quer fazer o deslocamento desse eixo'', analisa Filipe Miguez, que escreve com Izabel de Oliveira a próxima novela das sete da Globo, prevista para estrear no primeiro semestre de 2012. A história gira em torno de três domésticas vividas por Mariana Ximenes, Taís Araújo e Isabelle Drummond.
Ter uma mocinha doméstica não chega a ser uma novidade. Em ''Cama de Gato'', por exemplo, Camila Pitanga vivia a esforçada Rose. Ela não trabalhava em uma casa, mas fazia faxina na empresa do mocinho Gustavo, de Marcos Palmeira. No final, se casava com ele e mudava de vida. ''O público gosta de ver personagens de origem humilde ascenderem, passarem por transformações. Essa trajetória na ficção faz parte do inconsciente coletivo ocidental. Desde o mito do Pigmaleão e dos contos de fadas'', avalia Thelma Guedes, que escreveu com Duca Rachid a novela. E, segundo Duca, a inspiração para a personagem foi completamente pessoal. ''Rose era um pouco de mim e da Thelma. Somos suburbanas e conhecemos bem esse universo. Brincamos que só conhecemos os ricos das novelas do Gilberto Braga e do João Emanuel Carneiro'', diverte-se Duca.
Cristianne Fridman também inseriu uma doméstica na trama central de ''Vidas em Jogo'', da Record. E foi além. No grupo que ganhou o bolão da loteria, enriqueceram a ''do lar'' Marizete, de Betty Lago; o motorista Francisco, de Guilherme Berenguer e a cozinheira Margarida, de Amandha Lee. ''Gosto de personagens mais 'povão''', assume a autora. Mas, curiosamente, a escalação para viver uma empregada parece ter soado como uma espécie de libertação para Betty Lago. ''Todo artista deve ter a possibilidade de fazer de A a Z. Independentemente de ser alto, baixo, gordo, magro...'', opina ela, que gostaria de ter sido chamada para um papel mais humilde antes, mas não era por características físicas e por seu histórico como modelo. ''É como se dissessem que pessoas pobres não podem ter traços finos'', critica.
Na verdade, Betty parecia sentir falta de um papel com um apelo popular mais forte. Uma experiência que a comédia, de certa forma, já lhe trazia. Essa sensação, agora, pode ser sentida também por Marcelo Serrado. Depois de um período de cinco anos na Record, encarnando um mocinho e dois vilões na emissora, o ator não tem dúvidas de que experimenta em ''Fina Estampa'' seu papel mais popular. Na novela, ele é uma espécie de ''faz tudo'' da megera Tereza Cristina, vivida por Christiane Torloni. ''Ele mesmo se define como um 'personal all'. Existe uma relação forte de devoção dele com ela'', diz, mostrando que Crodoaldo Valério - conhecido como Crô - é ''mais que um simples mordomo''.
Além de Marcelo, outro ator conhecido do público frequenta os cenários da ''área de serviço'' da mansão da família Velmont em ''Fina Estampa''. Alexandre Nero encarna o violento Baltazar, motorista da casa. Mesmo com esse peso da violência doméstica, seu personagem é o terceiro entre os masculinos na preferência dos telespectadores. Só perde para Renê, de Dalton Vigh, e o próprio Crô. Um resultado que talvez ajude o ator a ver o final que deseja para Baltazar no ar. ''Minha torcida é por sua regeneração. O homem que escraviza é extremamente dependente da mulher. Por isso, bate e tenta impedir que ela vá embora. Espero que ele se transforme por amor àquela mulher'', explica.


