Solta na vida
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Geraldo Bessa <br> TV Press 
O jeito doce e aparentemente tímido de Marjorie Estiano continuam intactos. Mas, em pouco tempo de conversa, é notável perceber como parte da essência e dos objetivos da atriz sofreram alterações. ''Amadureci muito nos últimos anos. E as experiências e anseios da vida pessoal influenciaram também nas minhas escolhas e vontades profissionais'', admite a intérprete da sensível Manuela, de ''A Vida da Gente''.
O trabalho na atual novela das seis - assinada por Lícia Manzo e dirigida por Jayme Monjardim -, coroa esse momento de maturidade ao mostrar uma porção mais sofisticada - e elogiada - da atuação de Marjorie, que estreou na tevê na temporada 2004 de ''Malhação''. ''Fiquei com muito receios no início da trama. Mas estudei muito. Me preparei para as reviravoltas da Manu durante a história. Apesar da minha autocrítica, gosto do que vejo no ar. E a repercussão da novela foi positiva'', analisa a atriz curitibana.
Com o fim da trama próximo, Marjorie já começa a arquitetar os próximos passos. A carreira de cantora, iniciada com o álbum ''Marjorie Estiano'', de 2005, continua em pausa. Aos 28 anos, ela ainda sente sua veia musical pulsando, mas garante que a atuação manda nos seus projetos.
Ainda neste semestre, ela começa as filmagens de ''O Tempo e o Vento'', longa baseado na obra de Érico Veríssimo, onde volta a trabalhar com o diretor Jayme Monjardim. E em agosto, retorna ao teatro com a peça ''Inverno da Luz Vermelha'' - encenada pela primeira vez no início de 2011, onde interpreta a prostituta Christine. ''Com o fim da novela, fica bem mais fácil botar em prática esses outros projetos. Quero variar, trabalhar com pessoas e personagens diferentes'', ressalta.
''A Vida da Gente'' durou pouco mais de cinco meses, bem menos do que uma trama costumava ficar no ar. Gostou de experimentar uma novela mais curta?
Já estou morrendo de saudades das gravações, da equipe, das personagens. Mas acho que o tempo foi perfeito. Não só a duração, mas o número de personagens também. Acho que a Lícia (Manzo) conseguiu desenvolver todas as histórias previstas de forma coerente e sem enrolar muito. Não adianta a história ser imensa, com um elenco numeroso e cheia de cenas sem conteúdo. Acho que esse formato que está se estabelecendo no horário é um acerto.
Durante a novela, sua personagem evoluiu da condição de mocinha indefesa para uma mulher determinada. O que achou desta trajetória?
Desde que li os primeiros capítulos de ''A Vida da Gente'', o que mais me impressionou foi o jeito naturalista com que a autora escrevia as cenas. Minha personagem está por aí. Existem muitas jovens parecidas com a Manuela, que pensam igual a ela. Essa proximidade com a realidade me comoveu. E foi muito bom ver o crescimento dela com o passar dos capítulos, das dores, angústias e alegrias. A Manu perdeu a ingenuidade em rede nacional. Isso acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde.
Quando a Ana estava em coma, a Manu e o Rodrigo, de Rafael Cardoso, passaram a cuidar da Julia, de Jesuela Moro. Dessa convivência surgiu um envolvimento amoroso. Acha que isso manchou a imagem da personagem com o público?
Depende do julgamento do telespectador. Uns olham para essa relação com muita compaixão ao sofrimento dos dois. Outros já dariam uns bons tapas na Manu por ter ficado com a grande paixão da vida da irmã. Eu acredito que a relação deles é a mais real da novela. Não nasceu de um amor infantil ou de forma passional, foi crescendo pouco a pouco, no cotidiano. Mas o Rodrigo é fraco demais para perceber isso e acaba ficando dividido (risos).
O que a Manuela representa na sua trajetória como atriz?
Sem dúvida, é um amadurecimento. Não só no lado profissional, mas pessoal também. Mesmo sem querer, a gente vai aprendendo com as situações nas quais os personagens se envolvem. Em ''Duas Caras'', aprendi muito sobre sobrevivência e perdão. Agora, cada capítulo é uma aula de falhas humanas, que são normais. E outra, pude sentir a maternidade de forma muito próxima. Sei que não é o momento, mas deu vontade de ser mãe.
Pretende colocar a vontade em prática ou o foco atual está na carreira?
Foco totalmente voltado para a vida profissional. Além de estar solteira, não tenho ainda aquele senso de responsabilidade para criar, educar e suprir as necessidades de uma criança (risos).
Você começou na tevê como a aprendiz de vilã Natasha, de ''Malhação'' e vem acumulando personagens boazinhas, como a Maria de ''Duas Caras'' e a Tônia de ''Caminho das Índias''. Sente falta de interpretar tipos mais diversos?
Não fico planejando as coisas. Oportunidades me são oferecidas e eu vou aproveitando. Realmente, as boazinhas estão mais presentes no meu currículo, mas nada que me impeça de fazer uma vilã inescrupulosa, ou uma doida varrida no futuro. Estou bem contente com os rumos da minha carreira na tevê. Claro que quero diversificar, mas o que considero realmente importante é defender personagens que tenham tramas interessantes e espaço dentro das novelas. E disso eu não posso reclamar.
Você está cada vez mais próxima do cinema e do teatro. É uma tentativa de garantir personagens mais alternativos?
Experimentei o cinema com o filme ''Malu de Bicicleta'', de 2011, e me apaixonei. Essa experiência aumentou a expectativa em me envolver com outras produções. Mas como a indústria cinematográfica e teatral brasileira não funciona como a televisão, os projetos são feitos a longo prazo, dependem de apoios e patrocínio. Não vou descansar depois de ''A Vida da Gente''. Já estou envolvida com as filmagens de ''Apneia'', do Maurício Eça, e de ''O Tempo e o Vento'', do Jayme Monjardim, onde vou encontrar alguns amigos da novela, como o Thiago Lacerda, Rafael Cardoso, Leonardo Medeiros e Vanessa Lóes. Mal posso esperar!
Ano passado você estrelou o espetáculo ''Inverno da Luz Vermelha'', uma peça ousada e bem diferente de seus últimos trabalhos. Pretende retomar esse texto ou partir para outra empreitada pelos palcos?
Essa peça foi muito importante para mim e quero remontá-la no segundo semestre deste ano. Foi onde me dei a chance de brincar com o tema sexualidade, pouco comum na minha carreira. Ao contrário da imagem tímida e retraída que pintam sobre mim, eu adoro experimentar coisas novas. Por isso, a peça é tão significativa. Ao interpretar uma prostituta, pude mostrar uma sensualidade ainda não vista pelo público que acompanha o meu trabalho. Nem eu mesmo me via de forma tão sensual. Acredito que foi um despertar.
Você está cheia de projetos no teatro e no cinema. Por onde anda sua porção cantora?
Está presente na minha vida e bem registrada nos dois álbuns e no DVD que lancei. Música é fundamental para a minha atuação, ela me inspira, reúne vários tipos de arte. No entanto, estou sem tempo para desenvolver algo como cantora ainda este ano. Durante uma novela, com muitas cenas e roteiro semanal, fica meio complicado pensar em repertório e fazer shows. ''A Vida da Gente'' exigiu muito de mim, então é muito difícil conciliar com outras atividades. O próprio teatro já era bastante complicado. Mas esse meu lado não foi esquecido, devo começar a produzir algo para o final de 2013.


