Aprender a viver sem o sentido da visão é um desafio constante, ainda mais na hora de estudar. Transcrever livros didáticos em braille, gravar aulas em áudio e fazer tarefas utilizando ferramentas de escrita em braille fazem parte da rotina de qualquer deficiente visual que se dedica aos estudos. Transpor para o concreto alguns conceitos teóricos integra os desafios dessa aprendizagem e foi pensando em facilitar esse processo que um grupo de alunos do ensino médio do Colégio Sesi Londrina está confeccionando duas tabelas periódicas em braille para os deficientes visuais atendidos pelo Instituto Roberto Miranda (antigo Instituto dos Cegos de Londrina).
A ideia partiu do professor Aléscio Fachim Pelicho, da disciplina de Química, após participar de um curso de capacitação promovido na escola pelo Programa A União Faz a Vida, realizado pelo Sicredi, que desenvolve uma série de ações para a promoção do conceito de cooperativismo no ambiente escolar. "Após o curso, começamos a ‘Oficina Pelo Olhar da Percepção’, em parceria com o Sicredi, com um grupo de 30 alunos, e daí partiu a ideia de confeccionarmos a tabela periódica em braille, que é um recurso didático praticamente inacessível a eles", conta o professor, que em suas pesquisas não conseguiu encontrar algo parecido disponível.
"Pela dificuldade de transpor para o papel a quantidade de informações contidas na tabela, os alunos cegos normalmente estudam cada um dos elementos separadamente, em diversas folhas de papel, não tendo acesso à dimensão da tabela como um todo, o que faz diferença na aprendizagem desse conteúdo básico sobre a composição da matéria que começa a ser ensinado a partir do nono ano", acrescenta.
Para ajudar a superar essa limitação, há dois meses ele e um grupo de 12 alunos estão se dedicando à confecção de duas tabelas periódicas em braille que ficarão disponíveis para os alunos atendidos pelo instituto. Montadas sobre placa de MDF, com dimensão de 2,00 metros X 1,60 metro, as tabelas têm toda a parte textual escrita em braille (informação do símbolo, número atômico e nome do elemento), sendo os cinco grupos químicos identificados por placas de EVA coloridas com texturas diferentes (hidrogênio, metais, semimetais, não metais e gases nobres).
"Essa diferenciação de texturas era fundamental para que os alunos pudessem identificar a estrutura original da tabela periódica. Eles têm uma grande sensibilidade tátil e a tabela nessa dimensão possibilita uma compreensão do todo, já que pela escrita em braille não seria possível fazer a tabela em braille no tamanho das tabelas tradicionais em papel", explica.
A versão da tabela criada pelos alunos possui 112 elementos, e foi disponibilizado espaço para a inclusão de mais seis elementos recém-descobertos que ainda estão passando por uma definição oficial de nomenclatura. Apenas a massa atômica não foi contemplada na tabela por não ser possível transcrevê-la em braille no espaço especificado. Toda a parte escrita foi impressa em um tipo especial de papel plastificado que permite maior durabilidade.
Ao tocar uma das tabelas prontas, a professora Shirlei Mara Sambatti se encantou com o mais novo recurso pedagógico da instituição. "Nossa, até dá vontade de voltar a estudar. As pessoas não imaginam o quanto é importante transpor para o concreto esse tipo de informação. Isso ajuda muito na construção da imagem mental da tabela e o raciocínio dos conceitos químicos", destaca Shirlei, que começou a perder a visão ainda na infância devido a uma doença degenerativa da visão, o glaucoma congênito. Sinônimo de superação, ela é formada em Matemática e Pedagogia, e possui duas pós-graduações, atuando no instituto na parte de atendimento pedagógico de apoio.
Para a realização desse trabalho, os estudantes se reuniam duas vezes por semana no instituto, onde puderam conviver com os alunos com deficiência visual e conhecer um pouco do universo que faz parte do cotidiano deles, como o alfabeto braille (que é formado por seis pontos combinados entre si), a utilização da reglete – uma prancheta com régua metálica que serve para a escrita manual em braille com a utilização de uma pequena ferramenta que faz a punção na folha de papel (pressão que marca em alto relevo o papel), a máquina de escrita braille e a impressora em braille, além dos programas de leitura de tela no computador.
"Esse trabalho foi muito importante para ampliar o conhecimento de mundo dos nossos alunos. É um gesto concreto de solidariedade e cooperação e acho que todos nós saímos ganhando. Foi uma lição de vida", ressalta a diretora Gisele Cristina Moro Hesnauer.

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