A solidão assusta. Ergue brumas que isolam as pessoas do contato humano. Tinge de negro os dias de sol e alaga as noites de chuva. A solidão assusta. Por outro lado, sua total ausência também pode gerar brumas, cores negras e águas torrenciais. A ausência de solidão também assusta.
Existem muitos casos de homens que levaram uma vida isolada e solitária, mas raros são os casos de pessoas que nunca conheceram a solidão. Homens que nunca tiverem a oportunidade de ficar sozinhos. Um desses raros casos é dos irmãos gêmeos Chang e Eng.
Eles nasceram em 1811 com os corpos unidos. Uma membrana cartilaginosa, na região do peito e do ventre, ligava-os de maneira inusitada. Cresceram dessa forma, unidos. Tentaram viver como qualquer outra criança, mas acabaram virando atração de circo. Percorreram vários países sendo exibidos como ''monstrinhos''. Pelas mãos do destino se casaram com duas irmãs. Tiveram 21 filhos e morreram em 1874, com 63 anos de idade.
Chang e Eng nasceram no Sião (atual Tailândia) e ficaram famosos como os ''irmãos siameses'', ou seja, naturais do Sião. Permaneceram unidos até a morte, levando uma existência única. Com o tempo, o termo ''siameses'' passou a ser utilizado em todo o mundo para designar os casos médicos de gêmeos xifópagos.
A curiosa história dos irmãos siameses é resgatada em ''Chang e Eng'', romance do norte-americano Darin Strauss que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras. O escritor partiu de fragmentos da existência dos gêmeos, colhidos em jornais e livros do século 19, para criar uma trama ficcional. Os vácuos de informação foram preenchidos com imaginação. O romance é narrado por um dos gêmeos, Eng, aquele que desde a infância desejou um dia ficar livre do irmão, ou seja, ter sua própria vida. De diferentes personalidades, precisaram aprender a viver juntos em todas as situações, desde os pequenos movimentos até a convivência com suas respectivas esposas.
A história de Darin Strauss começa no interior do Sião, no pobre vilarejo onde os siameses nasceram e termina no norte dos Estados Unidos, onde os irmão fixam residência como agricultores até morrerem. Após o parto, Chang e Eng despertam todo tipo de curiosidade e asco. Com sete anos de idade são confiscados pelo rei, que pretende matá-los temendo simbolizarem uma maldição.
Após conhecê-los, o rei do Sião resolve transformá-los em bobos da corte. Com 13 anos de idade são levados para os Estados Unidos por uma contrabandista com objetivo de fazer fortuna exibindo-os em circos e teatros. Nunca mais voltariam à terra natal. Com o show que executavam dentro de uma jaula, percorreram a Europa e o interior dos EUA tornando-se famosos.
Numa dessas excursões, ao hospedarem-se numa pensão na Carolina do Norte, conhecem duas irmãs, filhas da proprietária. Trata-se das primeiras mulheres que olham para eles com carinho. Com 33 anos de idade, Chang e Eng nunca haviam tocado uma mulher. A condição física deles espantava as pessoas e, principalmente, as mulheres.
Chang e Eng acabam se apaixonando pelas irmãs, Adelaide e Sarah. Com uma boa dose de sorte, acabam casando e fixando residência na região. Assim, passam a morar os quatro sob o mesmo teto. Para resolver o problema da intimidade sexual, criaram um método: ''Sempre que uma de nós precisasse de privacidade com sua esposa, o outro tinha de ficar 'insensibilizado' um tempo, como que inconsciente, permitindo que o outro gêmeo gozasse da companhia da esposa em particular. Embora nossa situação parecesse imoral e chocante para o resto do mundo, era lançado mão do que chamávamos de 'controle alternado' que teríamos a certeza de mantermos puros. Eu entraria imediatamente no elevado alheamento do transe, tentando levar meu espírito para longe de nosso corpos.''
Assim, os irmão revezavam as noites na companhia de suas esposas. Mas no entrelaçamento de pernas e braços no escuro, e da proximidade dos corpos de Chang e Eng, alguma coisa aconteceu. Um dos irmão passou a se relacionar de maneira sutil com a mulher do outro. Uma traição difícil de ser concluída pela condição física, mas não impossível. Esse é o elemento surpresa apresentado pelo autor.
Em ''Chang e Eng'', Darin Strauss centra sua atenção nas possibilidades psicológicas que tumultuam a mente dos irmão. A impossibilidade da solidão e a total ausência de privacidade, de individualidade, pode gerar mecanismos específicos na cabeça de cada pessoa. A sintonia florescida durante os anos tanto pode ser algo bom, que garante a sobrevivência, e ao mesmo tempo ruim porque não comporta segredos.
Em síntese, Chang e Eng foram forçado a uma vida solitária devido a uma anomalia física. Ao mesmo tempo não consegue viver uma solidão individual pelo fato de estarem irremediavelmente colados. Um paradoxo. Mesmo quando são aceitos por Adelaide e Sarah, enfrentam o conflito de sentimentos e desejos. E para aliviar esse conflitos, a lealdade, a amizade e o amor não são suficientes. São apenas tentativas de controle das diferenças.
''Chang e Eng'' é o primeiro romance de Darin Strauss. Foi escrito a partir de uma bolsa de criação ficcional da Universidade de Nova York. Com um argumento extremamente interessante, optou por não voar muito alto em sua estréia literária. Adotou abordagens sutis que, de certa maneira, alteram o peso da trama e acabou diluindo as possibilidades psicológicas que a história poderia apresenta. Uma escolha que não elimina o mérito da obra.
• ''Chang e Eng'', de Darin Strauss, Editora Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 424 páginas, R$ 34,00.

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