Solidão em tempos modernos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de fevereiro de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''Estou convencido de que as separações, os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejos, a bulimia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção'', reflete o personagem de Martín (Javier Drollas), enquanto observa pela sua pequena janela o cenário irregular, os prédios grudados e os pequenos apartamentos sem janelas do caótico centro de Buenos Aires. Inteligente e sarcástica, não é por acaso que a dramédia argentina ''Medianeiras: Buenos Aires na Era do Amor Digital'' - que estreia hoje na programação do Cine Com-Tour/UEL - recebeu atenção especial do público e da crítica, se consagrando vencedor de três prêmios no Festival de Gramado em 2011, inclusive o de ''Júri Popular''.
Explorando o tema de um quase-romance entre dois personagens que estão em busca de um amor verdadeiro, ''Medianeiras'' é repleto de reflexões ácidas sobre o esmagador sentimento de solidão metropolitana, e se desenvolve a partir de duas narrativas paralelas, onde conhecemos os pensamentos e o cotidiano de Martín e Mariana (Pilar López de Ayala) que, apesar de não se conhecerem, são feitos um para o outro.
Martín é um webdesigner repleto de fobias, que passa a maior parte de seu tempo vivendo sua vida em frente à tela de um computador; um instrumento por onde ele trabalha, estuda, faz compras, ouve música, assiste pornografia e procura por um relacionamento nas redes sociais. Em um desses encontros casuais marcados pela internet, o personagem não esconde sua decepção, pensando que as mulheres que estão inscritas são como ''propagandas do McDonalds'' onde, nas fotos, o hambúrguer é muito mais saboroso e apetitoso do que na realidade.
Enquanto isso, Mariana é uma arquiteta frustrada que acabou de sair de um relacionamento enfadonho, de quatro anos (segundo ela, um desperdício completo de 208 semanas, 1.460 dias e 35 mil horas). Ela trabalha como vitrinista, arrumando os manequins em uma movimentada loja do centro de Buenos Aires. Mariana passa os dias dando banho nos bonecos de plástico, assistindo a filmes, ouvindo música e folheando as páginas de um grande almanaque de ''Onde Está Wally?''. Em uma dessas cenas, ela pergunta para si mesma, irritada por não conseguir encontrar o desenho do personagem no meio da multidão em uma praia. ''Assim como eu não consigo achar o Wally, talvez também não consiga achar o 'meu' Wally'', reflete.
Ela está certa. Martín está logo ali, no prédio ao lado, mas os dois sempre quase se esbarram, olham para o lado errado, seguem pelo caminho oposto, e perdem inúmeras oportunidades de se conhecerem de verdade. Em um dos momentos emocionantes do longa, observamos ambos os personagens, cada um em sua casa, assistindo na TV uma cena do filme ''Manhattan'' - clássico romance de Woody Allen. Eles ficam emocionados, com os olhos cheio de lágrimas. Em outra cena marcante, observamos os personagens aumentarem o som do rádio quando uma certa música começa a tocar, e eles fecham os olhos, talvez imaginando se existe alguma outra alma perdida naquela selva de pedra, apenas esperando para ser encontrada.
Repleto de 'gags' visuais e montado de forma inteligente, a direção de Gustavo Taretto retrata de maneira interessante e divertida os desencontros dos personagens, e o resultado final do filme é ótimo, mostrando uma originalidade difícil de encontrar em outros exemplares do cinema latino-americano (inclusive no brasileiro). Como uma espécie de Romeu e Julieta pós-moderno, o romance do casal não é atrapalhado por uma guerra entre famílias, mas por toneladas de concreto, uma sociedade superficial e uma cultura cada vez mais individualista, onde cada sinal de afeto também é sinal de fraqueza. Um mundo em que permanecemos conectados 24h por dia, contabilizando milhares de 'tweets' e amigos no Facebook, mas distantes de qualquer relacionamento real.


