São Paulo, 10 (AE) - Quando levou "A Nuvem" ao Festival de Veneza de 1998, o diretor argentino Fernando "Pino" Solanas disse em entrevista que não era obrigado - nem ele nem seus colegas latino-americanos - a adotar o estilo de linguagem do ocupante. Leia-se aí: o discurso hegemônico dos filmes norte-americanos, que atravanca o mercado exibidor e se impõe como único ao gosto do espectador. Segundo Solanas, ele, como argentino, tem um modo de pensar diferente. Não é anglo-saxão. Gosta do universo simbólico, retórico mesmo, das digressões, da argumentação que não necessariamente segue a linha reta para chegar ao seu objetivo. Pertence a outra tradição cultural.
Está tudo aí, nesse discurso sobre o filme, que estréia amanhã (11) na cidade. É o Solanas de sempre, ideológico, político até a alma, provocativo. Sempre em boa forma. Quanto à história de "A Nuvem", trata-se de uma alegoria e só assim pode ser vista, ou seja, sem referência ao discurso realista. Numa Buenos Aires caótica, chove o tempo todo. Mas o tempo todo, mesmo. Céu sempre carregado. Além do mais, as pessoas invariavelmente andam para trás.
Nesse quadro, um grupo de idealistas tenta salvar um velho teatro, ameaçado pela especulação imobiliária. Há uma história de amor no meio desse affair político. A brasileira Angela Correa, mulher de Solanas, interpreta uma bailarina, objeto do desejo de um ator argentino (Eduardo Pavlovsky). É um filme de grupo, daqueles que se passam no ambiente doméstico dos amigos e/ou amantes e no qual a realidade externa aparece filtrada por alguns elementos intermediários. O externo, quer dizer, o social, aparece às vezes de forma oblíqua, apenas para se destacar melhor. Contra a barbárie - Além da alegoria, em "A Nuvem" Solanas tenta reencontrar o cinema poético típico daquela que é, talvez, a sua melhor obra, "Tangos, o Exílio de Gardel". Neste, como em "A Nuvem", estão presentes algumas características, como a argentinidade orgulhosa de si mesma, ainda que em tempos difíceis; uma certa ética e estética rigorosas da existência, que vêm do tango e do lunfardo; um apuro visual, e conceitual, que denota a ligação do autor - e dos seus conterrâneos - com uma certa representação civilizada da luta das luzes contra a barbárie.
Porque é de barbárie que fala "A Nuvem". O Solanas político, que foi até mesmo candidato à presidência da Argentina
não se cansa de fustigar o status quo do seu país. Foi assim com o clássico dos anos 60, "La Hora de los Hornos", com "Tangos", nos anos 80 e "A Viagem", que, já nos 90, concorreu no Festival de Gramado. Neste, representava de forma satírica o presidente Carlos Menen, membro de uma certa Associação dos Países Ajoelhados. Alegoria cômica da tradicional submissão da elite dirigente latino-americana aos Estados Unidos. Esse desaforo, somado a outros, custou caro a Solanas. Custou-lhe mesmo um atentado à bala dos peronistas que apoiavam Menen, do qual saiu ferido nas pernas.
A representação de "A Nuvem" é, ao contrário do clima imaginado pelo autor para Buenos Aires, clara demais. Solanas entende que o alinhamento argentino aos Estados Unidos só pode ser comentado por um símbolo regressivo. Por isso as pessoas andam para trás - porque o país abandonou a idéia de progresso e caminha de volta à sua pré-história. Os argumentos de Solanas são os de um político, mais do que os de um esteta. Pela âncora cambial, a Argentina conseguiu acabar com a inflação. Amarrou o peso ao dólar e, mais do que isso, ligou seu destino a um país que, na cosmovisão do cineasta, deveria ser tido como antagônico.
Essa "parceria" não entra na cabeça de quem foi formado pela dialética dos anos 60, em que o capitalismo periférico se opunha, inevitavelmente, ao capitalismo dominante. O resultado: se a estabilidade financeira agradou à classe média e à sua necessidade de segurança, oprimiu ainda mais a classe pobre. Nunca houve, nos tempos recentes, tantos necessitados na Argentina. Aliança catastrófica - Essa aliança com o mais forte só pode ser regressiva e, a médio prazo, catastrófica, segundo o diretor. Por isso as nuvens negras sobre a capital de um país que, no seu entender, dorme com o inimigo e, assim, escolheu o pior dos caminhos para trilhar. O diagnóstico negativo sobre um país contrasta com a reserva moral e criativa que Solanas encontra em alguns poucos setores. Entre eles, principalmente, o dos artistas. Por isso recorre à situação emblemática em que um teatro fora do circuito se vê ameaçado e é defendido, contra toda a expectativa, por seus integrantes. Uma luta de Davi e Golias, que, ao contrário da lenda, não prenuncia bom final para o mais fraco. "A Nuvem" é pensado sob forma alegórica, como já foi dito, mas também é vestido como uma ópera, com música, cores e atos. O esquema da verossimilhança realista não vale nesse domínio. Necessita capacidade de entrega do espectador a esse universo artificial. Nada contra.
Parece, apenas, que algumas das metáforas do diretor já andam um tanto cansadas. São formas de representação que talvez já tenham tido seu apogeu em tempos idos. Referem-se a situações mais do que críveis e se pode concordar com a crítica que veiculam. No entanto, chegam à tela já sem tanta força para despertar a emoção - e a lucidez - no espectador. Apesar dessas reservas a esse filme em particular, Solanas continua sendo um dos cineastas mais importantes do continente.
Mantém linguagem própria e não cede ao padrão dominante do cinema argentino - um classicismo bem-comportado, que flerta sempre com o academicismo. Anda em terreno próprio, como fazem algumas exceções, que podem ser contadas com os dedos da mão esquerda, Eliseo Subiela e Alejandro Agresti, entre eles.

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