Tudo no novo disco de Pedro Mariano soa a bom gosto. Mas o repertório garimpado, o esmero dos arranjos e a elegância cool do intérprete parecem insuficientes para converter o ouvinte em fã.
‘‘Intuição’’ (Trama) confirma o talento do cantor sem garantir-lhe adesões apaixonadas. É o terceiro álbum do filho de Elis Regina e César Camargo Mariano, que assina a produção ao lado de Otavio de Moraes. No material, coabitam referências várias reunindo composições da Bossa Nova (Tom Jobim), MPB anos 70 (Sueli Costa e Victor Martins), rock dos anos 80 (Lulu Santos e Cazuza), pop dos anos 90 (Fernanda Takai e John) e colegas de turma (Jair Oliveira e Daniel Carlomagno).
Pedro costura tudo com requinte, através das roupagens musicais criadas pelos produtores. De acento soul, ele impõe-se como uma das vozes mais notáveis de sua geração, senão a melhor surgida na última década. Mas é CDF, padecendo de bom-mocismo. Correto na passagem das intenções às execuções, Pedro é intérprete de primeira linha. Capaz de alterar o timbre como poucos, conteve os maneirismos tão criticados em seu disco de estréia.
Chega a exagerar na frieza distanciada em ‘‘Preciso Dizer que te Amo’’, de Cazuza e Bebel Gilberto. As novas faixas esbanjam suingue, grooves funky e romantismo charm. O cantor envereda ainda pelo blues em ‘‘20 Anos Blues’’ (‘‘ontem de manhã quando acordei / olhei a vida e me espantei / eu tenho mais de 20 anos / eu tenho mais de mil perguntas sem resposta / estou ligado num futuro blue’’).
A faixa, de Sueli Costa e Victor Martins, fecha o CD. A exemplo do disco anterior (‘‘Voz no Ouvido’’), Pedro reforça a idéia de abordar a linhagem black das canções com instrumentação e arranjos brasileiros. É o que mostra o funk-samba ‘‘Furacão’’ (‘‘quando ela vem o meu mundo se vai / vão pelos ares projetos e contas’’), de Daniel Cartolagno, para ficar num exemplo.
O ponto alto do repertório é a regravação de ‘‘Você Vai Ver’’, de Tom Jobim, com participação especial de Zélia Duncan fazendo dueto vocal com o anfitrião. Esbanjando virtudes, ‘‘Intuição’’ colherá fartos elogios da crítica especializada nos próximos dias. Mas dificilmente entrará na lista dos melhores ao final do ano. É que o fogo da intensidade permanece ausente na obra do filho de Elis.

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