Sofisticação sertaneja
DivulgaçãoCena de Vau da Sarapalha: vida sonora do sertão é valorizada no espetáculoSofisticação sertaneja
Espetáculo baseado em texto de Guimarães Rosa conduz o espectador ao universo do imponderável
Francelino França
Uma fazenda denegrida e desmantelada perdida no sertão brasileiro foi o cenário escolhido pelo imortal Guimarães Rosa para revolver dramas existenciais. Sarapalha é um lugar pra se deitar no chão e se acabar. O definhar de uma região esquecida, contrapõe com as lembranças intermitentes dos primos Argemiro e Ribeiro, protagonistas do conto.
Eles sofrem crises com a malária, que dizimou a população de Sarapalha. Entre uma tremedeira e outra, o repensar da vida açoita sem piedade. Rosa aproveita esse estado de letargia provocado pela doença para colocar à prova a resistência humana. A dor física a nossa maior danação.
O naco de diálogo entre os primos (Everaldo Pontes e Nanego de Lira) foi o ponto de partida para que o paraibano Luiz Carlos Vasconcelos transformasse o conto de Guimarães Rosa numa obra-prima do teatro brasileiro nessa década. Vau da Sarapalha está há sete anos na estrada. A sofisticação do universo sertanejo de Guimarães Rosa foi transposta para o espaço cênico do Núcleo I, em Londrina, dentro da programação do Filo, de forma envolvente e impactante.
Luiz Carlos assina também a direção, cenografia e iluminação. No negrume inicial da encenação, ele nos conduz a uma atmosfera mágica, sensorial e orgânica, só possível no teatro. Para recriar o imponderável de Guimarães Rosa, Vasconcelos valorizou dois personagens secundários, Nega Ceição e o cachorro magro Jiló.
A empregada Ceição, com a magnífica atriz Soia Lira, cria um idioma particular, uma espécie de bênção de rezadeira. Uma única frase ininteligível. Neste achado, Vasconcelos trabalha com o nascedouro da língua. Com o idioma de Nega Ceição, ele zerou todos os significados do português. Esse linguajar da personagem é revestido de uma pulsão psíquica cadenciada.
Servílio Gomes é o chachorro pulguento. Suas intervenções caninas na vida dos primos valem sessões de psicanálise. O público esquece que há um ator dando vida ao quadrúpede. A cumplicidade do animal com os primos é tão grande que ele fica desesperado nos momentos finais. A alma canina padece.
Outro aspecto valorizado por Luiz Carlos Vasconcelos nessa irreparável produção é a vida sonora do sertão. A sonoplastia do espetáculo dialoga com o texto. Galos, grilos e pássaros preenchem o amanhecer no palco, enquanto a vida dos primos definha. A tremedeira da intermitente foi ritmada com a sonoplastia. O sonoplasta Escurinho é um percussionista fenomenal. Duas latas vazias de leite Ninho, um arame esticado e um arco sonorizou toda a angústia dos momentos cruciais de Ribeiro e Argemiro. Todo o espetáculo é ritmado, tal qual a aparição da intermitente, das intervenções do cão pulguento e da Nega Ceição.
Luiz Carlos Vasconcelos revolveu os fundamentos da dramaturgia de Guimarães Rosa, trazendo à tona o perfume da madeira ardendo, da arruda da benzedeira, da alfazema. A cena final em que o fogo consome o palco nos inseriu num universo perdido no tempo e no espaço. Aquele fogo mágico consumiu nossa imaginação. Vau da Sarapalha é um achado poético universal.
O espetáculo Vau da Sarapalha com o Teatro Piolin tem sua última apresentação no Filo programada para hoje, às 20 horas, no Núcleo I (Rua Quintino Bocaiúva, 1.234, Londrina).





