Rio, 07 (AE) - O sociólogo francês Alain Touraine é o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele tomou posse como sócio correspondente no chá semanal de ontem (06), na vaga do escritor mexicano Octavio Paz, morto no fim do ano passado. Para ele, a homenagem é dupla. "Além da importância da Academia como instituição, não só no Brasil, mas em todo o mundo, é uma honra suceder Octavio Paz, uma grande personalidade intelectual", disse ele na quinta de manhã, pouco depois de concluir o discurso da posse, feito em português e espanhol. "Para homenagear o Brasil e meu antecessor", ressaltou ele.
A ABL tem 20 sócios correspondentes além dos 40 acadêmicos brasileiros. A eleição dos estrangeiros ocorre por indicação de um imortal nacional e o escolhido torna-se membro vitalício. A homenagem é prestada a intelectuais ligados à cultura brasileira, não necessariamente àqueles que se preocupam em divulgá-la no exterior. Além do já morto Octavio Paz, receberam a homenagem o ex-primeiro-ministro português Mário Soares, o escritor francês Maurice Druon (também presidente perpétuo da academia francesa) e o moçambicano Mia Couto.
Mas Touraine não veio ao Brasil apenas para essa homenagem. Ele conta que se sente metade europeu, um quarto latino-americano e outro tanto brasileiro, tantas foram as vezes que esteve aqui e devido à amizade que fez com brasileiros ilustres, como o presidente Fernando Henrique Cardoso, o economista Celso Furtado e o também sociólogo Herbert de Souza. Além disso, ele vem ao Brasil, desde os anos 60, dar cursos em universidades brasileiras, especialmente na Universidade de São Paulo (USP). "Essa convivência faz com que eu me sinta mais paulista do que brasileiro", brinca ele. "Meu jeito de ser e viver combina perfeitamente com o modo de vida paulista".
Touraine está no Brasil também para abrir, na segunda-feira, a conferência internacional "A Construção do Tempo e os Futuros Possíveis", promovida no Rio pela Universidade Cândido Mendes e pela Unesco. Liberalismo - O título de sua palestra de abertura será "A Mestiçagem das Temporalidades", mas o tema será o que lhe é caro há alguns anos: como encontrar saídas para o liberalismo. "É preciso insistir que, nos últimos 20 anos, saímos da sociedade estatal para outra de mercado", resume ele.
"Precisamos encontrar uma forma de combinar o mercado aberto, que é uma realidade sem volta, com as vantagens sociais que o Estado proporcionou às populações no período pós-guerra". Para o sociólogo, os países que conseguiram equacionar melhor este problema foram a Dinamarca e a Holanda, mas o Brasil tem chances de chegar lá, se conseguir resolver sua desigualdade social. Ele compara o Brasil à França e afirma que nos dois países a presença do Estado é muito forte na vida das pessoas.
"Na França, vivemos um período de angústia porque se acredita que não se pode ter uma economia aberta com vantagens sociais", explica Touraine. "Aqui também se vive um momento de transição e ruptura, com o fim de um regime estatal, mas acredito que, dentro de dois ou três anos, o Brasil conseguirá iniciar uma aliança entre a aconomia aberta e as exigências da sociedade".

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