Societas Raffaello Sanzio volta ao Brasil para apresentar "Orestea"
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de setembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 30 (AE) - Um dos mais interessantes grupos do teatro italiano, o Societas Raffaello Sanzio, apresenta amanhã (01) em São Paulo "Orestea", uma adaptação da trilogia grega de Ésquilo. Dirigido desde sempre por Romeo Castellucci, o grupo esteve no Brasil no festival de Ruth Escobar, em 1995, com dois espetáculos: "Buchettino" (adaptação do conto infantil O Pequeno Polegar) e "Da Lucifero".
Voltaram agora com Hamlet (que já apresentaram no Sesc Belenzinho) e amanhã estréiam "Orestea", no qual fazem uma conexão de Ésquilo com Lewis Carroll e Antonin Artaud. "É um trabalho mais ligado à figura, tem várias leituras e um registro diferente de "Buchettino", com muitos planos", explicou o diretor do grupo, Romeo Castellucci.
Ésquilo é o fio condutor de uma pesquisa teatral que conecta a figura de Alice (a do País das Maravilhas) à Ifigênia de Ésquilo, filha de Agamenon e Clitmnestra. "O texto de Ésquilo, assim como o de Carroll, é estranho, entra às vezes na dimensão da fábula", diz o diretor. "Essa linguagem de associações mentais, oníricas, é que liga Ifigênia a Alice".
O papel de Agamenon é feito pelo ator Loris Comandini, portador da síndrome de Down. Mas Castellucci faz questão de ressaltar que não se trata de fazer o "discurso da patologia" nem de procurar um sentimento provocatório ou patético. "É muito importante o que Lori faz, não o que ele é", diz o diretor. "Ele não assume Agamenon, ele é Agamenon".
Comandini traz ao grupo, segundo a avaliação do diretor, uma outra lógica e outra maneira de interpretar que rompe com os padrões "pobres" do teatro contemporâneo. "Orestea" busca mostrar a condição de solidão do homem, mais do que a leitura tradicional que se faz de Ésquilo - a de que a sua busca é a da afirmação dos valores humanistas, como no caso de "Os Persas". "A solidão é uma condição contemporânea e é próprio da solidão o elemento trágico", afirma Castellucci.
Menos do que a palavra de Ésquilo, no entanto, o que importa ao grupo Raffaello Sanzio é a dimensão física, corporal, imediata de seu texto. Nisso estaria a conexão com Artaud - e aí também está outra conexão com Lewis Carroll, fechando o círculo. "Quando Artaud esteve no manicômio, se ocupou de traduzir cinco textos de Carroll com sua maneira muito particular, como uma língua física", lembra Castellucci. Essa "língua física" artaudiana está presente no primeiro ato do espetáculo. O segundo é definido por Castellucci, de maneira poética, como uma cena silenciosa, "como se fosse projetada na Lua". Serviço - "Orestea". Adaptação do grupo Societas Raffaello Sanzio. Direção de Romeo Castellucci. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 12,00. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Até domingo


