Sociedade mortificada
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sábado, 03 de outubro de 2015
Marcos Roman<br> Reportagem Local 
Após passar por 37 cidades de sete países, a performance urbana "Cegos" chega amanhã à cidade como uma das atrações de maior destaque da programação da 13ª edição do Festival de Dança de Londrina. Criação do grupo de teatro, performance e intervenção urbana Desvio Coletivo, de São Paulo, a encenação será realizada a partir das 11h45 em espaços públicos londrinenses que representam o poder financeiro e político. Reunindo dezenas de pessoas cobertas de lama e com os olhos vendados andando em câmera lenta, a encenação faz uma crítica política e poética sobre o estado de mortificação que envolve a sociedade contemporânea.
A performance permite vários tipos de leitura, segundo o responsável pela concepção da montagem. "Ela pode ser vista como uma crítica à sujeira que envolve representantes do poder público e financeiro. E também como à petrificação gerada pelo excesso de trabalho que acaba tomando cerca de 90% do tempo da maioria das pessoas que são obrigadas a abrir mão da vida própria em troca da sobrevivência", afirma Marcos Bulhões, idealizador da encenação em parceria com Marcelo Denny.
Bulhões conta que teve a inspiração artística para criar o espetáculo quando, por conta de um diagnóstico médico errado, estava desenganado no leito de um hospital. "Tive uma visão muito forte dos executivos petrificados com suas roupas chiques e suas maletas imponentes em plena Avenida Paulista, centro financeiro da maior cidade do País. Conversando sobre isso com o Marcelo Denny, que também integra o Desvio Coletivo, ele sugeriu as vendas nos olhos. A partir daí decidimos montar a performance", relata.
Ele esclarece que "Cegos" é resultado de uma Oficina de Intervenção Urbana promovida em cada cidade por onde a performance passa. "Em Londrina abrimos 50 vagas para qualquer pessoa, não é necessário ser ator ou bailarino para participar. Durante a oficina, que é gratuita, ensaiamos os gestos performáticos e escolhemos os locais por onde passaremos", revela Bulhões, sobre a oficina que começou ontem e termina hoje. "A apresentação tem três horas de duração e nesse período passaremos por diversos pontos da cidade, como Calçadão, Centro Cívico e ruas comerciais que concentram um grande movimento de pessoas", antecipa.
Cerca de setecentas pessoas participaram da ação como performers. "Além do estranhamento estético e do choque causado no público, a apresentação costuma mexer muito com quem atua na performance. Os movimentos em câmera lenta, o corpo coberto por argila e a reação dos espectadores promovem uma reflexão profunda sobre o modo de vida petrificado no qual estamos inseridos. É uma experiência muito enriquecedora. Pedimos apenas que os performers tragam suas próprias roupas e sapatos para a apresentação", salienta Bulhões.
Quanto à reação da público, ele afirma ser a mais diversa possível. "Algumas pessoas ficam em profundo silêncio e outras falam muito, concordando sobre a mortificação da sociedade. Em Paris, policiais impediram a aproximação dos performers ao prédio onde funciona a prefeitura da polícia local. Em Fortaleza o pelotão de choque foi acionado para que a gente não se aproximasse do monumento a Castelo Branco. De uma forma ou de outra a reação é sempre de choque", enfatiza.
A rede Desvio Coletivo surgiu a partir do curso de extensão "Experimentos em Performance I", realizado em 2011 pelo Grupo de Estudos em Performance e Pedagogia da UNESP em parceria com o Laboratório de Práticas Performativas da USP. O curso gerou os primeiros estudos para criação do espetáculo PULSÃO, de 2013, e a reunião dos artistas que hoje coordenam o projeto. Destes encontros surgiu a Ação #01 e Ação #02, dois espetáculos/experimentos baseados na pesquisa da arte relacional e performance. Hoje o Desvio Coletivo se tornou um núcleo da Cooperativa Paulista de Teatro e realiza ações independentes.
O grupo possui como foco a investigação, de forma teórica e prática, sobre as relações entre a Arte da Performance e as diferentes linguagens artísticas. Através da realização de experimentos pedagógicos e de trabalhos de criação, pretende-se contribuir para o estudo das práticas performativas em Teatro, Dança, Artes Visuais, Música, Intervenções Urbanas, tecnologias audiovisuais e digitais. Ao todo o Desvio Coletivo reúne mais de vinte artistas.
Serviço:
Performance "Cegos" com Desvio Coletivo (SP)
Quando Amanhã, a partir das 11h45
Onde Locais a serem definidos
Quanto Gratuito


