Na semana passada, cerca de 60 pessoas participaram durante dois dias de um curso de vinhos para iniciantes, na Mercearia do Gourmet, em Londrina. ‘‘Prefiro chamar de curso para iniciados’’, explica o professor Alcides Carvalho. Entre os ‘‘alunos’’ do curso ‘‘Da vinha ao vinho’’, apenas dois nunca tinham provado a bebida.
Segundo o professor Alcides, nos últimos dois anos, o consumo de vinho em Londrina aumentou 50%. ‘‘Mas não foi um aumento de beberrões, e sim de apreciadores’’, afirma. De acordo com o professor, a experiência de quem se excede nas doses de vinho não é nada boa, e por isso ninguém pensa em repetir.
Mineiro, Alcides Carvalho morou e estudou no Rio Grande do Sul, aonde aprendeu a beber vinho com regularidade. Depois, mudou-se para a Europa, onde morou três anos e descobriu os prazeres da bebida. De volta ao Brasil, não se acostumou ao vinho nacional. ‘‘Em 76, o nosso vinho ainda era muito díficil de ser tragado’’, conta.
Foi aí que surgiu a idéia de produzir o próprio vinho. Em 79, ficou pronta a primeira safra. ‘‘Não é nenhum Châteaux Latour, mas é muito bom’’, explica o professor, que em produz em média 600 a 800 garrafas por ano. ‘‘Mas nunca vendi nenhuma garrafa, é para consumo próprio, família e amigos’’, completa. A produção também é dividida com o produtor das uvas, ‘‘porque aí tenho a certeza de que a uva é bem cuidada, e sem agrotóxicos’’, explica. ‘‘Pisamos a uva, equilibramos o açúcar e mais nada’’, diz Carvalho, que não acrescenta nada ao seu vinho.
‘‘Passei a estudar para fazer melhor’’, lembra o professor, que também faz parte da Confraria do Vinho de Londrina, que surgiu no ano passado e conta com 25 participantes. ‘‘Estamos pensando em aumentar para 40’’, planeja. A cada duas semanas acontecem reuinões, onde o vinho, é claro, é a vedete. Cada participante leva uma garrafa para ser degustada durante o encontro. ‘‘O vinho é uma bebida que pede companhia’’, explica Carvalho, que lembra que o vinho não é como o uísque, que se pode beber sozinho.
‘‘O vinho de fácil alcance melhorou muito. Antes faltava tecnologia, hoje já é possível beber vinhos mais baratos sem medo e sem susto’’, explica o professor. Segundo ele, com R$ 10,00 a R$ 15,00 se pode encontrar vinhos razoáveis. ‘‘Com R$ 20,00, você compra bons vinhos’’, garante. ‘‘A história de quanto mais caro, melhor, não existe nos vinhos’’, diz. ‘‘É possível encontrar vinhos chilenos de R$ 40,00 melhores que franceses de R$ 200,00’’, lembra.
Além dos chilenos e franceses, Alcides Carvalho também cita os italianos, e os vinhos do ‘‘novo mundo’’, como os australianos, sul-africanos e os americanos, com a produção californiana. A surpresa, agradável, são os argentinos, ‘‘que estão invadindo o mercado com bons vinhos’’, lembra. Entre os brasileiros, Carvalho cita o gaúcho Miolo.
‘‘O vinho é um alimento, além de ser medicinal, facilitando a circulação e combatendo os radicais livres’’, explica o professor. ‘‘É uma preciosidade criada pela humanidade, surgida há oito mil anos’’, completa.
Para os iniciantes, Alcides Carvalho indica uma lista, que começa um vinho branco leve, como o Frascatti, ‘‘que é bem leve, frutado e deve ser esfriado bem antes de se beber’’. Na sequência, um vinho branco um pouco mais forte, como o Chardonnay. Partindo para os tintos, a indicação do professor é o Miolo ‘‘Seleção’’, que traz uma mistura de uvas. O chileno Merlot vem em seguida, depois surge o francês Côtes-du-Rhône, indo para o chileno Carmen e os australianos e sul-africanos, mais encorpados.
Quem tem medo na hora de combinar o vinho com a refeição, Carvalho lembra que ‘‘a arte é saber equilibrar. Nunca um vinho encorpado deve ser servido com uma refeição fraca, e vice-versa’’. Seguindo essa linha, peixes (que em geral são acompanhados por vinho branco) também podem ser servidos com tintos, ‘‘como o salmão, que tem um sabor mais forte’’, explica. A dica do professor é não servir vinho com comidas muito apimentadas ou com saladas, por causa do vinagre.
Segundo o professor, três variáveis fazem o vinho. A primeira é o ‘‘terroir’’ – tudo que se relacione ao ambiente, como a terra, chuva, ventos. A segunda variável é a cepa, e se relaciona à planta. ‘‘Cada uva (e existem centenas delas) tem uma particularidade’’. E por fim, o homem. ‘‘É preciso saber quem fez, se a vinícola é confiável ou não’’, ensina. ‘‘Uma mesma vinícola produz vinhos diferentes a cada safra, porque pode chover muito ou não durante o ano’’.
Aprender a ler o rótulo das garrafas também é um bom começo. ‘‘Quando um vinho é varietal, indica que ele foi produzido com um só tipo de uva, o que o torna mais caprichado’’, explica o professor, que já recebeu pedidos para os próximos cursos. Entre eles, o ‘‘curso de vinhos com comidas brasileiras’’ e ‘‘como ler o rótulo’’.

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