SOBRETUDO, UM REQUINTADO APRECIADOR
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de julho de 2000
Karla Matida De Londrina 
Na semana passada, cerca de 60 pessoas participaram durante dois dias de um curso de vinhos para iniciantes, na Mercearia do Gourmet, em Londrina. Prefiro chamar de curso para iniciados, explica o professor Alcides Carvalho. Entre os alunos do curso Da vinha ao vinho, apenas dois nunca tinham provado a bebida.
Segundo o professor Alcides, nos últimos dois anos, o consumo de vinho em Londrina aumentou 50%. Mas não foi um aumento de beberrões, e sim de apreciadores, afirma. De acordo com o professor, a experiência de quem se excede nas doses de vinho não é nada boa, e por isso ninguém pensa em repetir.
Mineiro, Alcides Carvalho morou e estudou no Rio Grande do Sul, aonde aprendeu a beber vinho com regularidade. Depois, mudou-se para a Europa, onde morou três anos e descobriu os prazeres da bebida. De volta ao Brasil, não se acostumou ao vinho nacional. Em 76, o nosso vinho ainda era muito díficil de ser tragado, conta.
Foi aí que surgiu a idéia de produzir o próprio vinho. Em 79, ficou pronta a primeira safra. Não é nenhum Châteaux Latour, mas é muito bom, explica o professor, que em produz em média 600 a 800 garrafas por ano. Mas nunca vendi nenhuma garrafa, é para consumo próprio, família e amigos, completa. A produção também é dividida com o produtor das uvas, porque aí tenho a certeza de que a uva é bem cuidada, e sem agrotóxicos, explica. Pisamos a uva, equilibramos o açúcar e mais nada, diz Carvalho, que não acrescenta nada ao seu vinho.
Passei a estudar para fazer melhor, lembra o professor, que também faz parte da Confraria do Vinho de Londrina, que surgiu no ano passado e conta com 25 participantes. Estamos pensando em aumentar para 40, planeja. A cada duas semanas acontecem reuinões, onde o vinho, é claro, é a vedete. Cada participante leva uma garrafa para ser degustada durante o encontro. O vinho é uma bebida que pede companhia, explica Carvalho, que lembra que o vinho não é como o uísque, que se pode beber sozinho.
O vinho de fácil alcance melhorou muito. Antes faltava tecnologia, hoje já é possível beber vinhos mais baratos sem medo e sem susto, explica o professor. Segundo ele, com R$ 10,00 a R$ 15,00 se pode encontrar vinhos razoáveis. Com R$ 20,00, você compra bons vinhos, garante. A história de quanto mais caro, melhor, não existe nos vinhos, diz. É possível encontrar vinhos chilenos de R$ 40,00 melhores que franceses de R$ 200,00, lembra.
Além dos chilenos e franceses, Alcides Carvalho também cita os italianos, e os vinhos do novo mundo, como os australianos, sul-africanos e os americanos, com a produção californiana. A surpresa, agradável, são os argentinos, que estão invadindo o mercado com bons vinhos, lembra. Entre os brasileiros, Carvalho cita o gaúcho Miolo.
O vinho é um alimento, além de ser medicinal, facilitando a circulação e combatendo os radicais livres, explica o professor. É uma preciosidade criada pela humanidade, surgida há oito mil anos, completa.
Para os iniciantes, Alcides Carvalho indica uma lista, que começa um vinho branco leve, como o Frascatti, que é bem leve, frutado e deve ser esfriado bem antes de se beber. Na sequência, um vinho branco um pouco mais forte, como o Chardonnay. Partindo para os tintos, a indicação do professor é o Miolo Seleção, que traz uma mistura de uvas. O chileno Merlot vem em seguida, depois surge o francês Côtes-du-Rhône, indo para o chileno Carmen e os australianos e sul-africanos, mais encorpados.
Quem tem medo na hora de combinar o vinho com a refeição, Carvalho lembra que a arte é saber equilibrar. Nunca um vinho encorpado deve ser servido com uma refeição fraca, e vice-versa. Seguindo essa linha, peixes (que em geral são acompanhados por vinho branco) também podem ser servidos com tintos, como o salmão, que tem um sabor mais forte, explica. A dica do professor é não servir vinho com comidas muito apimentadas ou com saladas, por causa do vinagre.
Segundo o professor, três variáveis fazem o vinho. A primeira é o terroir tudo que se relacione ao ambiente, como a terra, chuva, ventos. A segunda variável é a cepa, e se relaciona à planta. Cada uva (e existem centenas delas) tem uma particularidade. E por fim, o homem. É preciso saber quem fez, se a vinícola é confiável ou não, ensina. Uma mesma vinícola produz vinhos diferentes a cada safra, porque pode chover muito ou não durante o ano.
Aprender a ler o rótulo das garrafas também é um bom começo. Quando um vinho é varietal, indica que ele foi produzido com um só tipo de uva, o que o torna mais caprichado, explica o professor, que já recebeu pedidos para os próximos cursos. Entre eles, o curso de vinhos com comidas brasileiras e como ler o rótulo.


