“É pequenino que se torce o pepino” – o velho ditado é tão verdadeiro quanto lamentável. Verdadeiro porque é mesmo quando criança que incorporamos valores e desenvolvemos caráter, através principalmente da família. Mas é também quando, em nome de crenças ou ideologias, as crianças podem ser “torcidas”, afeitas à força a um modo de ser e pensar ou, no mais das vezes, de servir.

A Prefeitura de Itatiba divulga o programa Atiradores Mirins, é questionada na net e esclarece que o título se deve a convênio com o Tiro de Guerra; os meninos não aprenderão a atirar, apenas “cultuarão valores cívicos, éticos e patrióticos”. Mas é o tipo de coisa que tanto pode resultar em cidadania como em ideologia com idolatria.

No nazismo, os jovens eram preparados aos milhões pela Juventude Hitlerista, com tal dominação mental que chegavam a denunciar deslizes ou descrença nazista dos próprios pais. Além desse uso ideológico, os jovens hitleristas foram usados militarmente no final da guerra, quando faltavam soldados para todas as frentes de batalha. Entre os defensores de Monte Castelo, onde morreram quatro centenas de pracinhas brasileiros, estavam jovens hitleristas.

Havia organizações semelhantes também para meninas e moças, onde as mentes eram preparadas para venerar Hitler e odiar judeus e ciganos. Há muitos relatos de jovens e até crianças alemãs espancando prisioneiros russos. Entre os últimos combatentes a se render na queda de Berlim estavam meninos de apenas 14 anos, que choravam por se render em vez de lutar até o último homem, como ordenara Hitler antes de matar a si mesmo.

Imagem ilustrativa da imagem Sobre velhos ditados e novos pepinos
| Foto: Reprodução

Na Itália, o fascismo também cultivou a “educação” para-militar e “cívica” dos jovens. Nas férias, milhões iam para acampamentos onde aprendiam a marchar, lutar, obedecer ordens e exaltar Mussolini e os valores fascistas: totalitarismo e censura, em nome da ordem; nacionalismo exacerbado, em nome da pátria; militarismo, em nome da glória italiana. Interessante é que o líder Mussolini, que tanto pregava a valentia e o heroísmo, foi aprisionado tentando fugir travestido de mulher, e, sem qualquer glória, linchado e pendurado de cabeça para baixo.

Mas ditaduras e mesmo governos democráticos continuaram e continuam a querer “fazer a cabeça” de crianças e jovens. No Brasil, já em 1936 a ditadura getulista criou a Organização Nacional da Juventude, para a mesma pré-instrução militar embora “segundo os princípios católicos”. E, na ditadura militar, foi criada a disciplina escolar Organização Social e Política do Brasil, até nas universidades, para apregoar valores e conveniências oficiais. Eram aulas onde os professores contavam histórias, enrolavam, promoviam debates fúteis e, enfim, colhiam festivais de bocejos.

No mundo da esquerda, os jovens não são menos aliciados que na direita. Cuba tem sua União dos Jovens Comunistas desde 1962. Como a mente jovem é uma massa pronta para ser moldada pelos primeiros a chegar a ela além da família, as ideologias se apressam a criar organizações e escolas para crianças. Não é à toa que, quando o MST confronta polícia, as crianças são colocadas na frente como escudos vivos, pois já estão preparadas para o papel de defensores das crenças dos adultos, confiantes em se tornar heróis conforme o mito Guevara.

Muitos brasileiros que tratam Bolsonaro como “mito” o apontam para as crianças, como figura a ser venerada e exemplo a ser seguido cegamente, como no campo da esquerda fazem com Lula. Tanto bolsonaristas como lulistas relevam os defeitos de um e outro para os jovens. Louva a ditadura? “Ah, mas nem existiu ditadura!” Corrupto? “Ah, é tudo tramoia das elites!”

Tenho neto escoteiro, e confio no movimento escotista porque se dedica à preparação espiritual, aceitando todas as religiões, à participação social, sem orientação ideológica, e ao desenvolvimento pessoal. Deve ser por isso que, apesar de existir em quase todos os países, o escotismo é proibido apenas nas ditaduras de Cuba, Coreia do Norte, Laos, Myanmar e China.

Mas sempre procuro ver se, mesmo no grupo escoteiro, não estão torcendo os pepinos. A ideologia, seja qual for, como sistema sempre visando o poder e portanto usando pessoas, é o veneno das sociedades. Então até para isso vale o lema escoteiro: - Sempre alerta!

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