Sozinha e em silêncio, a tímida Laura (Zoé Héran) se encara no espelho de seu quarto escuro. Observando seu corpo e seu rosto, a garota tenta vislumbrar um pedaço de sua própria identidade: o que faz dela...ela? De maneira leve, divertida e profunda, o filme francês ''Tomboy'' - estreia desta semana no Cine Com Tour/UEL - explora o tema da sexualidade, conseguindo percorrer um assunto polêmico com equilíbrio notável: sem excesso dramático nem caindo na superficialidade.
Escrito e dirigido de forma intimista pela diretora Céline Sciamma, no começo o espectador é apresentado para a pequena (ou pequeno?) protagonista, que se diverte enquanto finge dirigir - no colo de seu pai (Mathieu Demy) - em direção a sua nova casa. Pouco a pouco, somos apresentados para o resto de seus parentes: sua adorável irmã mais nova Jeanne (Malonn Lévana) e sua mãe grávida (Sophie Cattani), formam a dinâmica de uma família feliz. A narrativa transcorre tão naturalmente que o espectador se sente observando, como se fosse pelo buraco da fechadura, o cotidiano daquele pequeno apartamento.
Esquecendo o mundo dos adultos e sempre se mantendo fiel dentro da perspectiva infantil, no decorrer do filme somos apresentados também ao mundo de 'fora do apartamento', quando a protagonista faz amizade com a simpática Lisa (Jeanne Disson). Logo, surge o conflito: depois de brincar com um grupo de crianças, a garota se apresenta como Michael, um nome de menino. Laura não gosta de bonecas; ela quer jogar futebol, brigar na grama e beijar outras meninas. Sua aparência, com corpo franzino e cabelos curtos, favorecem para que ela seja imediatamente incorporada como mais um dos garotos do grupo.
Mesmo tratando de um assunto um pouco espinhoso, o fascínio do filme de Sciamma é fortalecido, em grande parte, pela maneira delicada com a qual a cineasta consegue retratar o universo das crianças do condomínio - entre um leque enorme de brincadeiras: de 'esconde-esconde' ou 'verdade ou consequência', conseguimos identificar pontos em comum de qualquer infância saudável. É notável também como a cineasta se utiliza, por diversas vezes, de reflexos em espelhos para ilustrar o caráter ambíguo na relação da protagonista com todos ao seu redor e, principalmente, consigo mesma.
A atuação dos atores mais jovens - com uma média de 5 a 10 anos - é impressionante, conseguindo transmitir um sentimento simples, puro, e que remete com sucesso à inocência infantil. Se a atuação de todos os atores mirins é admirável, o filme ganha principalmente pela incrível sensibilidade nas atuações de Zoé e Mallon, dupla que se relaciona com uma química comovente, interpretando duas irmãs muito diferentes, mas que se amam de maneira incondicional.
Construído mais com gestos e olhares do que explorando diálogos, o longa ganha muitos pontos por não tentar explicar freudianamente a natureza da homossexualidade latente na personagem de Laura/Michael, optando tratar o assunto como uma crise existencial ou uma lição de amadurecimento. Depois de parar de mentir - para os outros e para si mesma - Laura pode finalmente se descobrir como realmente é.

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