Sobre luto e demônios
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quarta-feira, 20 de junho de 2018
Rodrigo Salem<br>Folhapress 

Toni Collette, 45, estava decidida a dar uma pausa nos trabalhos mais intensos e fazer uma comédia mais relaxante. Somente no ano passado, a atriz australiana esteve em nove projetos. Mas "Hereditário", seu primeiro longa de 2018, passa longe das risadas: é o filme de horror mais perturbador dos últimos anos, uma trama macabra sobre luto e demônios. Enquanto filmava "Madame" (2017) em Paris, porém, recebeu de seu agente o roteiro e se sentiu urgida a aceitar.
"Hereditário" é o primeiro longa do diretor e roteirista Ari Aster, 31, que fez fama no mundo dos curtas. Ele conta a história de uma família lidando com a morte da matriarca, uma mulher repleta de "segredos e suspeitas", como descreve sua filha, Annie, vivida por Collette, no funeral. "É uma bela meditação sobre luto", diz a atriz. "Essa família tenta superar a dor mais dilacerante que existe, e não há uma maneira certa ou errada para lidarmos com ela. E, no momento mais sombrio, tudo ainda fica pior para eles." No caso, o núcleo familiar se vê assaltado por uma série de tragédias, e a normalidade parece nunca se restabelecer.
Annie tenta compreender seus sentimentos ao mergulhar no trabalho como artista de miniaturas. O marido, Steve (Gabriel Byrne), se torna a âncora da casa, enquanto o casal de filhos, Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro), é afetado pela perspectiva de uma doença mental ou de algo que não passa por suas cabeças: uma maldição sobrenatural deixada pela avó.
"Há elementos assustadores no filme. Mas amo que a trama seja sobre como a morte quebra a dinâmica familiar", diz Collette. "O sobrenatural é uma extensão direta de algo muito natural e acredito que seja um milagre ter um longa com esses dois elementos batalhando simultaneamente."
Recuando no tempo, a mistura de gêneros está em "O Bebê de Rosemary" (1968), de Roman Polanski, e "Inverno de Sangue em Veneza" (1973), de Nicolas Roeg. Mais recentemente, "Corrente do Mal" (2014), de David Robert Mitchell, e "A Bruxa" (2015), de Robert Eggers, usam o horror como exercício intelectual. Ambos, porém, foram vendidos como filmes de terror mais populares, e o público se sentiu enganado, atribuindo notas baixíssimas aos longas.
JOVENS
"Hereditário" mirou os jovens com campanha semelhante. Os trailers eram ágeis e centrados nos sustos. O diretor divulgou os rituais de magia negra que pesquisou para o roteiro. Mas, ao contrário dos outros, o filme tem momentos assustadores e talvez a cena mais chocante e inesperada do ano. Ainda assim, as notas apuradas pela Cinemascore junto aos espectadores são baixíssimas.
Já revistas especializadas, como a "Rolling Stone", chegaram a chamá-lo de "O Exorcista' da nova geração", e o filme foi aclamado no Festival de Sundance, onde estreou em janeiro passado.
Alheio à divisão entre crítica e público, o filme independente rendeu US$ 13 milhões (cerca de R$ 49 milhões) no fim de semana de estreia. Em dez dias nos EUA, fez quase US$ 30 milhões (R$ 112 milhões), o triplo do que custou.
OSCAR
Já se sussurra a palavra "Oscar" ao lado do nome de Toni Collette - em 2000, ela foi indicada como atriz coadjuvante por "O Sexto Sentido", coincidentemente outro filme de terror fora dos padrões. "Vejo algumas similaridades entre os dois projetos. A mais óbvia delas é o fato de serem dramas familiares com uma reviravolta. Ambos são filmes especiais", diz Collette, que quase não conseguiu o papel em "Hereditário" por causa de sua agenda lotada. O diretor segurou as filmagens até conseguir sua protagonista.
"Agradeço a Ari. Sou otimista, e a maioria dos meus filmes possui elementos de esperança. Mas 'Hereditário' é aterrorizante porque não há nele esperança alguma. É um pesadelo ambulante."


