Sobre comédias românticas
Em 'Um Amor Inesperado' um casal de meia idade experimenta uma crise, se separa e termina por se reencontrar
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quinta-feira, 18 de abril de 2019
Em 'Um Amor Inesperado' um casal de meia idade experimenta uma crise, se separa e termina por se reencontrar
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Como ocorre com alguma (irritante) frequência, algumas salas do circuito multiplex da cidade programam suas estreias mais ou menos às escuras, mostrando filmes que não estavam na mira das expectativas urgentes do grande publico. Assim, determinados títulos de inequívoca qualidade e carregados de interesse, passam praticamente em branco quando trafegam na contramão do pleno espetáculo visual e sonoro – esta via, vale dizer, é aquela desprovida de recheio carnal do tipo mais ordinário, banal, simples, conectado com a realidade do cotidiano da humanidade, esta humanidade que não cospe fogo, não voa se não for levada por transporte aéreo tradicional.
Aquela humanidade-chão, desprovida de poderes extra tudo e de efeitos especiais. Aquela humanidade com seus defeitos nossos de cada dia. Um desses títulos é “Um Amor Inesperado”, a comédia romântica argentina que há uma semana apenas fez brevíssima escala por aqui. Mas que, resgatada, volta a partir de hoje para uma segunda chance. Vale muito a pena conferir.

Existem dois tipos de comédias. A maioria delas trabalha sob o pressuposto de que é tudo muito fácil, repetindo uma após outra de acordo com um modelo inicial. São muito ambiciosas, e uma chatice sem fim. Mas há as outras, as menores: nestas, os cineastas adivinharam que a comédia não é um gênero, mas uma maneira de olhar. Por meio delas, quem as escreve e quem as dirige (geralmente a mesma pessoa) olham o mundo e olham o seu mundo. Estas são sempre comédias na primeira pessoa em que o autor fala de si mesmo através de seus personagens na linguagem de comédia. Aqui há um conjunto privilegiado no qual se incluem os nomes de Billy Wilder, Woody Allen e Judd Apatow; e ao qual se pode acrescentar agora o nome do produtor argentino Juan Vera, quem assina “Um Amor Inesperado” (2018), seu filme de estreia como diretor.
Em termos gerais, o filme pode ser inscrito no rol de comédias hollywoodianas clássicas, ali pelas décadas de 1930 e 1940, às quais o filósofo Stanley Cavell batizou de “comédias de rematrimônio” no ensaio “The Pursuits of Happiness” , publicado em 1981. Como nos sete filmes analisados por Cavell, também em “Um Amor Inesperado” um casal de meia idade experimenta uma crise, se separa e termina por se reencontrar.
Aqui estão o entediado professor universitário Marcos (Ricardo Darin) e Ana (Mercedes Morán), não muito convicta profissional da área de marketing. O casal tem um filho que se muda com um bolsa para estudar na Espanha. O casal desaba em meio a angustia, à sensação de vazio, depressão. Ninho vazio é apenas a ponta do iceberg, o curto pavio. Na verdade Marcos e Ana confirmam o que há tempos intuíam: já não se amam.
Escrito com precisão e acuidade, o engenhoso roteiro se centra em detalhe importante: antes de serem personagens com suas particularidades, os protagonistas funcionam como arquétipos. Arquétipos de certa classe média portenha, ilustrada, viajada, bem pensante, bem instalada, com bom gosto. No entorno, personagens que são um pouco como eles, de certa forma funcionando como espelhos (todos intérpretes com visível vocação para a comédia). Marcos e Ana vão oscilar entre a tentação de estarem livres com sua disponibilidade e a velha zona de conforto.
Em “Um Amor Inesperado” há doses generosas de fluidez e de elegância, e um timing e um brilho nos diálogos que não se vê com frequência. Darín e Moran esbanjam química, e o ator especialmente curte e muito um papel criado à sua medida, com a justa combinação de humor e carga dramática que ele sempre maneja como poucos.

“Um Amor Inesperado” resulta em sólido produto comercial adulto, uma comédia romântico-dramática armada e executada de maneira a uma só vez pessoal e profissional, intima e industrial. Uma historia que fala a uma plateia deste século com o charme da melhor criatividade dos mestres hollywoodianos que inventaram um gênero que mostra sua perenidade quando em boas mãos.


