Sobre a solidão urbana
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Londrina 
Seleção oficial em Cannes-98, ''O Buraco'' (veja a programação de cinema na página 5) é um dos diversos representantes desta fase preciosa do cinema chinês, sem distinção geográfica, continental ou não. E demonstração da grande forma por que passa o diretor Tsai Ming Liang. Mais urgente que ''O Rio'' (Urso de Prata em Berlim), menos prolixo que em ''Viva o Amor'' (Leão de Ouro em Veneza), menos visceral que ambos, em ''Dong'' o que se percebe é uma esplêndida maturidade, uma capacidade de composição e hamornia forma-fundo que poucos cineastas contemporâneos oferecem. E uma inesperada ironia. Acusado principalmente de exibir estéreis exercícios estilísticos, carregados em duração e lentidão, na verdade o cineasta de Taiwan se limita a filmar a condição humana deste fim-início de séculos.
A narrativa de ''O Buraco'' faz a interação entre dois mundos: a prosaica existência exterior dos dois personagens centrais, um homem e uma mulher que habitam uma desolada paisagem urbana, chuvosa (sempre a água, elemento essencial para Ming Liang), aqui complicada ainda por uma misteriosa epidemia, vivendo em decadentes apartamentos em prédios idem. E seus pensamentos e sentimentos, que tomam a forma cinematográfica de números musicais cantados e dançados ao estilo hollywoodiano. Um buraco aberto no teto que divide os apartamentos a princípio inquieta o homem e a mulher, mas se transforma aos poucos num meio de comunicação entre os dois solitários moradores - métodos convencionais de contato estão sempre disponíveis mas nunca são utilizados. Por aquela abertura passa a transitar de tudo um pouco, líquidos em especial. A ação se desenrola quase sempre em ritmo muito lento, refletindo a alienação, o isolamento, a falta de sentido, ou de propósitos ou de direção. Sempre sob chuva torrencial.
Sempre perturbador, o caráter hipnótico dos planos-sequências de ''O Buraco''. O gesto, o menor movimento dos corpos é seguido com angústia, coisas do pequeno cotidiano, enquanto dormem, ou comem, ou vão ao banheiro para as necessidades fisiológicas. Faltam as palavras, os diálogos, e o únicos sons que ecoam pelo edificio enfatizando a desolação ficam por conta do rádio ou da televisão, que transmitem dramáticos boletins sobre a epidemia, lá fora. Nesta perspectiva de dilúvio universal, de apocalipse de fim de milênio, um homem e uma mulher se encontram sós, mas com a possibilidade de se aproximarem um do outro, de se solidarizarem, até de encontrar o amor como forma de superação de uma realidade sempre opressora. Apesar de tudo, há um pequeno nicho de esperança no importante cinema de Tsai Ming Liang, que este levou de presente para Cannes ''Et la Bàs, Que L'Heure Est'il?'', seu filme mais recente e na mesma medida imperdível.


